Sábado, 26 de Abril de 2014

Rui Nabeiro, solidário e visionário

Jorge Araújo

Prof. Emérito da Universidade de Évora

 

Sou um observador externo: nem alentejano e, em boa parte, um estrangeirado. O meu olhar sobre Rui Nabeiro não passa pelo crivo dos padrões nacionais que privilegiam o sucesso empresarial, embora não o menorize. Identifico e saliento em Rui Nabeiro muitas outras facetas que compõem uma personalidade de raro quilate no universo português. Confesso que sou um dos seus grandes admiradores, e estou grato à vida por ter tido a oportunidade de lhe outorgar o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Évora.

 

O sucesso empresarial de Rui Nabeiro é amplamente reconhecido, tendo merecido inúmeras distinções e homenagens, tanto em Portugal como no estrangeiro: prémios que distinguiram a sua actividade como empresário, o carácter social das suas empresas, o sucesso comercial, a qualidade ambiental, a contribuição para a economia nacional, etc.

 

Mais ainda, em 1995 foi agraciado com o título de Comendador pelo Presidente Mário Soares; em 2006 foi distinguido pelo Presidente Jorge Sampaio com a Grã Cruz da Ordem do Infante; em 2009 foi agraciado, em Espanha, com a Comenda da Ordem de Isabel a Católica. Em 2011 foi nomeado Cônsul Honorário de Espanha, em Elvas e agraciado com a Medalha da Extremadura.

 

A par da actividade empresarial, a cidadania de Rui Nabeiro expressou-se também noutros planos, como na gestão autárquica, tendo estado catorze anos à frente da Câmara Municipal de Campo Maior, e na gestão do seu clube de futebol, o Sporting Campomaiorense, do qual foi presidente durante dezanove anos.

 

Centrar-me-ei não no empresário mas no cidadão Rui Nabeiro destacando três aspectos que contribuem, a meu ver, para que seja uma personalidade singular pelo seu humanismo; singular não só no meio empresarial português, mas na sociedade em geral. Referir-me-ei à fraternidade que ele inculcou na edificação do seu império empresarial. Destacarei a sua paixão pela educação. Salientarei a consciência que lhe assiste da importância do conhecimento e da investigação científica que o gera.

***

Na verdade, o primeiro traço distintivo da personalidade do cidadão a que me refiro é o de uma pessoa socialmente integrada e integradora.

 

Eu explico-me: Rui Nabeiro subiu todos os degraus da vida com a tenacidade que é comum nos alentejanos; mas sem jamais esquecer que não os subiu sozinho. Ele tem seguramente consciência de que é detentor de qualidades pouco comuns, de visão do caminho a percorrer, de percepção das oportunidades, de perseverança e de coragem, de sobriedade, também. Mas jamais esquece aqueles que o acompanharam e que o ajudaram a construir o seu império. Ele tem plena noção de que, por mais genial que um homem seja, nada de notável conseguirá produzir se não contar com o seu semelhante; o seu semelhante foi o seu companheiro.

Nas suas empresas respira-se um ambiente de fraternidade e de respeito. Os funcionários são mais do que colaboradores, são companheiros quase na acepção etimológica do termo, aqueles “com quem se partilha o pão”. Por isso, as suas empresas são polos de integração social. É essa cumplicidade urdida de geração em geração, que integra os homens, as mulheres e os filhos, e os filhos dos filhos, que, em grande parte justifica o sucesso empresarial do grupo Nabeiro; que lhe confere também resiliência face às flutuações aleatórias dos mercados e dos contextos políticos e financeiros.

***

O segundo traço notável da personalidade de Rui Nabeiro, que o distancia de muitos outros, é a paixão pela educação.

 

Rui Nabeiro aprendeu por si que a riqueza das nações não está nos poços de petróleo nem em outras benesses naturais, mas está nos homens, no seu trabalho; e sobretudo, no trabalho valorizado pela educação. Não foi preciso conhecer os meandros das neurociências para intuir a imensa capacidade que reside no cérebro de uma criança, qual ardósia onde muito se pode escrever… ou se pode, desleixadamente, nada escrever. Não foi preciso estudar Montessori e outros pedagogos para compreender a importância da harmonização do espírito e do corpo, bem como a imensa capacidade de aprendizagem de que dispõe o ser humano em tenra idade.

Rui Nabeiro sabe que as crianças são o maior recurso que uma nação possui para edificar um futuro de bem-estar social, de riqueza cultural, de sucesso em todos os azimutes, enfim, um futuro de progresso. Por isso ele sonha com um Portugal verdadeiramente democrático que ofereça a possibilidade a cada menino de hoje, de vir a ser amanhã um cidadão interventivo e criativo…empreendedor.

 

Rui Nabeiro dá o exemplo do que deveria ser feito, mobilizando recursos gerados pelas suas empresas para a criação de uma escola modelo. Cria em Campo Maior, um Centro Educativo, ao qual veio a dar o nome de sua esposa, Alice. Trata-se da concretização de um sonho extraordinário, o de proporcionar às crianças a oportunidade, que ele próprio não teve, de explorarem ao máximo as suas potencialidades cognitivas e neuromotoras. Desconheço se existem outros centros educativos semelhantes no país. Ali, eu sei que se harmonizam os conhecimentos inerentes ao ensino básico com o desenvolvimento das expressões artísticas e corporais, o fomento da literacia e da numeracia, bem como a destreza linguística e informática.

Mas o seu empenho pela educação não se restringe ao seu Centro Educativo. Tem participado nos órgãos sociais de instituições de ensino superior, nomeadamente do Instituto Politécnico de Portalegre e da Universidade de Évora, oferecendo o contributo da sua experiência e da sua generosidade para bom funcionamento dessas instituições. E criou ainda o seu próprio Centro Internacional de Pós-Graduação, que tem sido frequentado por centenas de profissionais.

***

O terceiro aspecto da sua personalidade que irei sublinhar é a valorização que atribui ao conhecimento e o reconhecimento do papel da ciência como motor de progresso.

 

Sabemos que o conhecimento é património universal; actualmente, é o fruto da investigação científica, da experimentação e do desenvolvimento tecnológico levados a cabo em todo o mundo por investigadores e experimentadores. Uma vez divulgado e publicado, o conhecimento é património público e, com algumas excepções, fica acessível a quem o souber utilizar. As empresas são dependentes do conhecimento; incorporam-no constantemente nos seus produtos e nos processos funcionais com vista à inovação e à manutenção da competitividade, não se apercebendo sequer quanta investigação científica subjaz a coisas tão simples como à tinta que empregam nos rótulos ou aos materiais de embalagem.

 

Em Portugal, o financiamento da ciência é essencialmente público, pois a empresas, em geral, limitam-se a ir colher os frutos da investigação no depósito comum, que é universal, não cuidando de o alimentar, não se preocupando com o retorno que é moralmente devido, embora voluntário.

 

Mas há excepções. E Rui Nabeiro é uma dessas notáveis excepções que merece ser lembrada e louvada. Na verdade, a Cátedra de Biodiversidade por ele apoiada na Universidade de Évora com um significativo envelope financeiro por um período confortável de cinco anos, foi a primeira cátedra suportada pela indústria em Portugal, decorrendo daí uma produção científica (mais de uma centena de publicações) acolhida pelas revistas científicas internacionalmente mais conceituadas, e um Museu Virtual da Biodiversidade dedicado a todos os jovens do país.

O seu exemplo foi seguido, outras cátedras foram posteriormente criadas. Este facto testemunha mais uma vez a perspectiva social com que o cidadão Rui Nabeiro se concebe na pele de empresário.

 

Rui Nabeiro não é só mais um homem entre os homens; é um homem reconhecido e solidário; um homem com uma profunda confiança nas gerações futuras, para cuja formação procura contribuir activamente; um homem para quem o facto de não ter frequentado a universidade, não impede de compreender a importância do conhecimento em todo o espectro das actividades humanas e que não hesitou em ser pioneiro dando o seu apoio generoso à investigação científica.

 

É legítimo esperar que os seus descendentes mais jovens, formados nas melhores universidades, honrem o exemplo de humanismo, de generosidade e de clarividência que Rui Nabeiro projecta ao longo do seu trajecto de vida.

 

 

(Texto publicado da Revista da Delta e transcrito aqui por ocasião do encerramento da Cátedra)

 

Publicado por lapenseenedoit às 20:20

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