Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Doutoramento Honoris Causa de Michelle Bachelet

 Laudatio

 

Jorge Araújo

 Sala de Actos do Colégio do Espírito Santo

Universidade de Évora, 30 de Março de 2017

 

Senhora Presidente da República do Chile, Michelle Bachelet

Senhor Presidente da República de Portugal, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa

Magnífica Reitora da Universidade de Évora, Prof.ª Ana Costa Freitas

Senhor Ministro das Relações Exteriores do Chile, doutor Heraldo Muños

Senhor Ministro da Agricultura, das Florestas e do Desenvolvimento Rural, Luís Capoulas Santos

Senhora Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros

Senhores Deputados

Senhora e Senhores Embaixadores

Senhores Presidentes das Câmaras Municipais de Évora e de Reguengos de Monsaraz

Digníssimas autoridades Civis, Militares e Judiciais

Senhor Vice-Reitor da Universidade do Porto

Senhores Vice-Reitores e Pró-reitores

Senhores Diretores das Unidades Orgânicas da Universidade de Évora

Senhor Presidente da Associação Académica

Prezados colegas, funcionários e estudantes

Senhoras e senhores convidados

  

Señora Presidenta Michelle Bachelet, quiero manifestarle mi enorme satisfacción por la oportunidad que se me concede de conocerla personalmente, y dedico dos minutos del escaso tiempo disponible

a enmarcar este homenaje en el cuadro humanista que caracteriza a la Universidad de Évora desde su fundación, en el siglo dieciséis.

El compromiso firme con los valores del humanismo, raíz de los derechos humanos, ha sido no la única, pero sí una de las principales razones para otorgar los Doctorados Honoris Causa por esta Universidad.

En este mismo salón, exactamente donde ahora mismo se sienta la Señora Presidenta, han recibido anteriormente el Doctorado Honoris Causa personalidades destacadas por la valentía con que lucharon por la libertad y la defensa de los derechos humanos.

Recuerdo a los Presidentes de la República de Senegal, Leopoldo Senghor, y de Portugal, Mário Soares; recuerdo a D. Ximenes Belo, obispo de Timor y Premio Nobel de la Paz, y también a Graça Machel Mandela, de Mozambique. Y tampoco olvido a Sebastião Salgado, el genial fotógrafo que denuncia las catacumbas de la humanidad, donde no se cuestionan los derechos humanos porque ni siquiera está garantizado el más esencial de ellos, el derecho a la vida.

El Claustro de los Honoris Causa de la Universidad de Évora es vasto y cuenta con personalidades de varios sectores: la literatura, el arte, la ciencia, la diplomacia y el mundo empresarial, como Saramago, Jordi Saval, Amin Mallouf, Cutileiro, Malangatan y outros.

 

Señora Presidenta, va a estar en buena compañía !

 

Primeiros anos

Verónica Michele Bachelet Jéria nasceu e cresceu no seio de uma família da classe média, culta, liberal e laica, para quem a justiça constituía um valor supremo, e o rigor e a ética, exigências com que se dedicavam ao serviço público.

Sua mãe é arqueóloga e seu pai era um distinto oficial da força aérea, leal à República.

Em criança, Mica, como lhe chamavam, viveu uma infância feliz e desenvolta, revelando desde cedo, uma forte personalidade.

Em 1962, seu pai é nomeado adido militar junto da embaixada, em Washington. Este facto levou a que Michelle estudasse nos Estados Unidos onde adquiriu a fluência em inglês.

Dois anos passados, volta ao Chile para frequentar o ensino secundário. Revela-se então uma jovem inteligente, contestatária, estilo hippie, muito ativa e de interesses múltiplos. Destaca-se no desporto, numa seleção de voleibol, participa num grupo de teatro e cria, com outras colegas, um grupo musical – Las Clap Clap – no qual participa como guitarrista e cantora, animando festividades com canções de Bob Dilan, Joan Baez, dos Beetles...entre outros.

Também a atividade associativa estudantil a mobiliza e chega a ser presidente da comissão de curso.

Toda atividade extraescolar não impede Michele Bachelet de concluir, em 1969, aos 17 anos o ensino secundário com a mais alta classificação.

Revolucionária romântica

 

O ano seguinte,1970, será o ano charneira na vida de Michelle Bachelet, o ano das grande opções.

Como diz Pablo Neruda, “Você é livre de fazer as suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.

1970 foi o ano das escolhas fundamentais cujas consequências, na verdade, marcaram toda a vida de Michelle Bachelet.

Desde logo teve de escolher o seu futuro profissional. E como sempre, fê-lo de uma forma brilhante: opta pela medicina e alcança uma das mais elevadas classificações no exame de acesso à universidade.

Mas 1970, estamos todos recordados, foi também o ano em tomou posse o Governo de Unidade Popular chefiado por Salvador Allende.

É um tempo de euforia política e Michelle não fica indiferente. Ingressa na Juventude Socialista, destaca-se como dirigente do movimento estudantil e torna-se uma militante entusiasta da Unidade Popular.

 

Gabriel Garcia Marques disse um dia que “um escritor só escreve um único livro, embora esse livro apareça em muitos tomos com títulos diferentes”.

Analogamente, o livro da vida adulta de Michelle Bachelet, desdobra-se em três tomos.

O primeiro começa exatamente em 1970. Nesse ano e nos seguintes, Michelle viveu uma intensa militância política. Foi nesse fervilhar de cariz revolucionário que Michelle Bachelet edificou as bases da sua matriz ideológica.

Quando, passados três anos, ocorre o golpe militar, Michelle Bachelet é uma jovem mulher com uma opção ideológica formada.

Mas os acontecimentos trágicos que ocorreram nesse tempo e que a atingiram de modo tão brutal, a ela e à sua família, vieram consolidar o seu compromisso pessoal, enraizado no seu íntimo, de lutar pela liberdade, pelos direitos do seu povo e para que o Chile voltasse a ser uma democracia, terra de paz e de progresso social.

De facto, em 11 de setembro de 1973, Michelle Bachelet assiste em direto, a partir do cimo do Hospital, ao bombardeamento, pela aviação, do Palácio de La Moneda, sede do governo, onde seu pai trabalhava.

No mesmo dia, seu pai, o General Alberto Bachelet, é feito prisioneiro, brutalmente torturado e acusado de alta traição. Acabaria por falecer cerca de seis meses depois, no cárcere público de Santiago, sem qualquer assistência médica.

 

Michelle tem então perto de 22 anos. Apesar de abalada pelo profundo desgosto, prossegue os seus estudos de medicina e, clandestinamente milita nas fileiras do Partido Socialista com vista, naturalmente, à reposição por via revolucionária, da democracia.

Não por muito tempo, contudo. Alguns meses depois é presa, conjuntamente com sua Mãe, levada de olhos vendados e encarcerada na Villa Grimaldi, um dos mais macabros, tenebrosos centros de detenção, onde é sujeita aos horrores da humilhação e da tortura.

Em 1975 é libertada e, ato contínuo, obrigada a exilar-se. Acompanhada pela sua mãe, é metida num avião com destino à Austrália, onde se encontrava o seu irmão. Depois, viaja para a República Democrática Alemã onde a espera uma colónia de exilados chilenos.

Na RDA, Michelle envolve-se na atividade política de denúncia da ditadura de Pinochet, mas os enredos intrínsecos às comunidades de exilados políticos, decepcionam-na.

Apesar disso, Michelle não perde o norte: trabalha como auxiliar hospitalar, estuda alemão na Universidade Karl Marx, em Leipzig e, finalmente, quando já possui algum domínio da língua alemã, matricula-se na Universidade Humboldt de Berlim para prosseguir o seu curso de medicina.

Michele Bachelet terá tomado consciência de quão inconsequente era a luta política no estrangeiro; e terá concluído – e eu estou convicto disso – que enquanto permanecesse na RDA, no relativo conforto do exílio, não teria possibilidade de cumprir o compromisso que, intimamente, assumira, de lutar pela restauração da democracia no Chile.

 

Decide então pôr termo ao exílio.

Estamos em 1979 e Michelle Bachelet não completou ainda 28 anos. Obtém autorização do Governo de Pinochet com a condição de se abster de atividades políticas. Regressa ao Chile.

 

Minhas senhoras, meus senhores,

Aqui termina o primeiro tomo da vida da nossa homenageada, que poderíamos titular de fase revolucionaria romântica.

 

Medicina em serviço público

 O segundo tomo inicia-se com o regresso à Pátria. Michelle Bachelet adota de início um low profile suficiente para poder concluir a licenciatura sem ser muito incomodada.

Em 1983 obtém o diploma de Médica Cirurgiã. O governo, todavia, não a esqueceu e impede-a de exercer medicina nas instituições públicas.

Durante os sete anos seguintes, Michelle Bachelet exerce a medicina através de uma organização não governamental que se ocupa dos filhos de vítimas do regime militar, crianças cujos pais estão presos, foram mortos ou, simplesmente, desaparecidos. E, em simultâneo, graças a uma bolsa do Colégio Médico do Chile, conquistada pelo seu mérito, tira a especialização em Pediatria e Saúde Pública.

Assistimos ao declínio do regime militar de Augusto Pinochet. Perdido o apoio dos Estados Unidos especialmente a partir da presidência Carter, com relações internacionais crispadas com a vizinha Argentina, e uma economia em franco declínio, o regime enfrentava, por um lado os comados revolucionários de extrema esquerda e, por outro, a contestação popular.

Pinochet escapa a um atentado, mas não evita que a pressão popular lhe imponha um plesbicito, do qual, como estamos recordados, sai vencido.

 

Em consequência, em 1990, Augusto Pinochet é forçado a renunciar.

A participação de Michelle Bachelet neste processo político é efetiva mas não vanguardista

É então restaurada a democracia e eleito o 1º Governo democrático. Michelle é de imediato recrutada como epidemiologista pelo Serviço de Saúde Metropolitano e pela Comissão Nacional da Sida, é contratada como Consultora pela Organização Panamérica de Saúde, pela Organização Mundial de Saúde e ainda pela Agência de Cooperação Técnica Alemã, a GTZ.

 

O segundo tomo do livro da vida de Michelle Bachelet finda então em 1994. Encerram-se assim os 15 anos em que estudou, se especializou e exerceu medicina sempre em contexto de serviço público, e adquiriu ainda uma experiência nas organizações internacionais.

 

 

Política de Estado

Em 1994, Michele Bachelet tem 42 anos, despe a bata, guarda o estetoscópio, e regressa à política ativa. Mas desta vez à política de Estado.

Já não se trata de denunciar as malfeitorias do regime de Pinochet; trata-se, ao invés, de reconstruir a democracia e, através dela, reverter a herança ditatorial e neoliberal imposta por Pinochet. Trata-se de pôr em prática o seu compromisso para com o povo do Chile.

A sua primeira entrada no Palácio de La Moneda, acontece no Governo de Ricardo Lagos como assessora do ministério da saúde.

Porém, Michelle Bachelet sabe que o compromisso para com os seus compatriotas implicará que ela própria ascenda a patamares de responsabilidade mais elevados. E, para isso, há que desatar previamente um nó: a reconciliação dela com as corporações militares.

Toma então uma decisão extremamente arrojada: ir, ela própria, mulher, filha de um general que faleceu às mãos de camaradas de armas, ir ao âmago da instituição militar que era a Academia Militar de Estudos Políticos e Estratégicos, e inscrever-se para frequentar um curso de estratégia militar. Será a única mulher entre militares. O resultado foi tão brilhante que o Presidente Ricardo Lagos a convidou para frequentar o Colégio Interamericano de Defesa, em Washington.

 

De regresso ao Chile, Michelle Bachelet é nomeada assessora do Ministro da Defesa.

Em 2000 é nomeada Ministra da Saúde e, dois anos volvidos assume a pasta da Defesa.

Bom...e depois, deixa os todos os cargos ministeriais!

 

E porquê?

 

Para se candidatar à presidência da república.

 

Michelle Bachelet é eleita Presidente da República em 2006 e cumpre o seu primeiro mandato de quatro anos.

Após terminar o mandato presidencial, em 2010, foi nomeada pelo secretário Geral da ONU, Ban Ki-Moon, Secretária Geral Adjunta, cabendo-lhe a direção da recém criada Agência ONU-Mulheres.

Depois, volta ao Chile para se recandidatar à presidência da república. Em 2014, iniciou o seu segundo mandato de Presidente da República, que terminará no próximo ano.

Como seria de esperar, Michelle Bachelet duas vezes ministra ou Michelle Bachelet duas vezes Presidente da República, foi sempre uma mulher comprometida com os direitos humanos, com a equidade social, com a consolidação da democracia e, necessariamente, com o desenvolvimento económico sem o qual não seria sustentável o progresso social que o Chile hoje patenteia.

 

São marcas fortes – e esperamos indeléveis, no futuro – do seu governo, as políticas focadas na proteção infantil, na igualdade de género e na proteção da mulher, no acesso gratuito à educação e à formação superior, na segurança social e no sistema de pensões, no acesso aos cuidados de saúde e à habitação. Mas também o respeito pelos direitos das minorias como os dos homossexuais e dos povos indígenas.

 

A consolidação da democracia implicou não só uma atenção prioritária com as referidas políticas de apoio à inclusão social mas também a reconciliação da sociedade civil, em si mesma, dilacerada que foi durante 17 anos por tensões políticas extremadas; mas, não menos importante, foi a reconciliação da sociedade civil com as forças armadas.

O apreço do povo chileno pelo desempenho da sua Presidente ficou expresso na popularidade com que terminou o primeiro mandato, popularidade superou os 84%.

 

Sr. Presidente

Magnífica Reitora

Senhoras e senhores

 

Três histórias distintas num só livro de vida, a de uma jovem revolucionaria, a de uma médica responsável dedicada ao serviço público, e, finalmente, a de uma estadista.

Três histórias diferentes ligadas, percorridas por um fio de Ariadne: o compromisso com a liberdade. Liberdade que se consubstancia nos direitos humanos e que só em democracia se pode concretizar.

Por isso, em cada uma dessas voltas da vida, qual estádios metamórficos, em que Michelle Bachelet reencontra um novo registo para afirmar o seu compromisso,

Em cada uma dessas voltas da vida, dizia, imagino que se terá recordado daqueles versos de Paul Eluard

Et par le pouvoir d’un mot

Je recommence ma vie,

Je suis né pour te connaitre, pour te nommer,

Liberté

 

Se porventura, das minhas palavras, alguém deduziu que Michelle Bachelet é uma mulher abnegada, qual Madre Teresa da liberdade e dos direitos universais, está enganado.

Na verdade, em todo o seu percurso de vida, Michelle Bachelet não abdicou de ser mulher, de amar, de se apaixonar, de casar e descasar, de ter filhos – e teve três - e de cozinhar para eles; e hoje, não abdica de cozinhar e cantar para os netos.

 

No discurso que proferiu, quando recebeu o Prémio Nobel, em 1982, Garcia Marques caracterizou a América Latina como (e cito) “esse reino sem fronteiras de homens alucinados e de mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda”.

 

Pois bem, Magnífica Reitora, é precisamente para uma dessas mulheres históricas, obstinada na defesa dos direitos humanos e na edificação da democracia, seguramente lendária no futuro, que venho advogar a outorga, pela Universidade de Évora, do doutoramento Honoris Causa.

 

Disse.

 

Publicado por lapenseenedoit às 19:49

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