Quinta-feira, 31 de Outubro de 2013

Estratégia, precisa-se

Jorge Araújo

 

Fiquei agradavelmente surpreendido pela sensibilidade revelada por muitos dos membros do Conselho Geral da Universidade de Évora quanto à dimensão estratégica que se espera do governo da casa, particularmente expressa no nível de exigência subjacente aos pedidos de esclarecimento dirigidos ao Reitor.


Para mim é tanto mais gratificante quanto, desde há alguns anos, venho referindo a necessidade de a Universidade de Évora responder às adversidades com uma estratégia delineada para o desenvolvimento e, em última instância, para a sobrevivência, em lugar de carpir sobre cada corte orçamental.


Na realidade, quer gostemos ou não, a rede pública de Ensino Superior vai, à semelhança dos hospitais, dos tribunais ou das Forças Armadas, etc. viver com menos recursos transferidos do Estado. Quem não previu…estava distraído; quem não preveniu, foi imprevidente.


Desde o ano fasto de 2010, em que o OE caiu no regaço da reitoria reforçado em 10 milhões de euros em virtude do Contrato de Confiança que eu próprio assinei em finais do meu último mandato, as transferências do Estado têm vindo a diminuir, desenhando uma “curva” que deveria ter suscitado uma atitude pró-activa e não meramente reactiva.


Independentemente da crise financeira que nos atinge, a quebra de procura do ensino superior vem anunciada desde há muito nos estudos elaborados pelo CIPES, pelo que teria sido judicioso ter dado continuidade às medidas estratégicas que anteciparam o agudizar do estrangulamento financeiro e a referida diminuição da procura.


Desde que os orçamentos das universidades começaram a afastar-se do padrão (1997) e a aproximar-se da “linha vermelha”, e que foram conhecidos os estudos acima referidos, o delineamento de estratégias de desenvolvimento que nos pudessem proporcionar uma capacidade de sustentação acrescida, ganhou em nós uma dimensão quase obsessiva. Referirei apenas algumas.


Um conjunto de medidas tomadas, decorrentes do pensamento estratégico, recorreram ao conceito de “âncora” pois consistiram em soluções das quais se esperava a sustentação de áreas inteiras onde se temia que ocorresse um progressivo resvalar para a irrelevância.


As Ciências Agrárias constituem uma área fundacional da UÉ e, a justo título, uma das suas bandeiras. Contudo, as Ciências Agrárias sofreram um período de forte recessão na sequência do abandono generalizado da agricultura induzido aparentemente por opções europeístas. Pouquíssimos eram os alunos que ingressavam nos cursos de engenharia, quer zootécnica, quer agronómica, em contraste com os cerca de 120 que se recebiam em anos anteriores. A abertura da Licenciatura em Medicina Veterinária, conjugadamente com a criação do Hospital Veterinário, antecipou de certo modo o que era espectável. Na verdade, consistiu numa decisão “âncora” que susteve todo o sector na pior fase da sua trajectória. Hoje, as Ciências Agrárias estão de novo no caminho de poderem vir a constituir um dos pilares fundamentais da Instituição. Recordemos, a propósito, que a UÉ é detentora de um vasto património fundiário, com cerca de 700 ha abrangidos, em boa parte, pelo perímetro de rega do Alqueva que pode e deve dar apoio à formação dos nossos diplomados.


A área das Ciências e Tecnologia não agronómicas padece da competição tenaz quer da Faculdade de Ciências de Lisboa, quer do Instituto Superior Técnico ou ainda da Universidade Nova de Lisboa. Havia que identificar subsectores onde a UÉ pudesse “furar” oferecendo uma alternativa credível. Escolhemos duas “âncoras” e apostámos nelas, drenando financiamentos externos: as Energias Alternativas e a Biodiversidade versus Alterações Climáticas. A reflexão estratégica apontou para a criação de “Cátedras” suportadas por empresas com um volume significativo de financiamento anual. Como resultado, a UÉ viu aumentada significativamente a sua produção científica e a respectiva visibilidade, e adquiriu uma posição nacional e internacional relevante em qualquer dos dois domínios.


Nas Ciências Humanas e Sociais é particularmente difícil identificar um sector que se diferencie ao ponto de poder ganhar o estatuto de “âncora”. O Património, a Arqueologia e a Tradução perfilavam-se para desempenhar essa função. A equipa fundadora do Centro Hércules, consagrado à preservação do Património, conseguiu, graças ao seu próprio dinamismo, estabelecer a ponte entre as humanidades e as ciências experimentais e conquistar uma posição internacional relevante. Ao invés, a Arqueologia, apesar de ter ao seu alcance os Campos Arqueológicos da Ammaia e de Mértola, bem como as ruinas da Vila romana de Pisões, e de ter beneficiado de apoios substanciais da UÉ e da FCT regrediu à condição inicial. Na verdade, pode considerar-se que foi uma “âncora” que se soltou!


As Ciências da Saúde estiveram expressamente arredadas do elenco de ensinos da Universidade de Évora pela bula “Cum a Nobis”, através da qual o Papa Paulo IV autorizou a criação da segunda Universidade do Reino, em 1559. Curiosamente, as Ciências da Saúde também não figuravam nas atribuições do Instituto Universitário de Évora, em 1973. A partir de meados da década de 90, entendemos contrariar esse atavismo e iniciou-se um processo conducente à incorporação da Escola de Enfermagem São João de Deus na UÉ, o que veio a verificar-se muitos anos mais tarde. Ninguém poderá negar, hoje, o peso dessa “âncora”, o valor estratégico da decisão que lhe subjaz, bem como as oportunidades que encerra para o futuro da Instituição.


As Artes foram consideradas por alguns, depreciativamente, como a “flor na lapela do Reitor”. A criação dos cursos artísticos suscitou então reacções antagónicas extremadas e, mesmo depois de as licenciaturas terem “vingado”, verificaram-se esforços, em sede de revisão estatutária, para lhes retirar a autonomia e a especificidade. Estratégica foi igualmente a contratação de profissionais de topo para encabeçarem cada um dos departamentos (entretanto, quase todos afastados). A Escola de Artes é hoje, sem qualquer sombra de dúvida, um dos pólos mais promissores da UÉ, quer pela adesão que o público continua a manifestar, quer pela excelência da formação aí ministrada que se repercute em prémios alcançados todos os anos, a nível nacional e internacional, quer ainda pelo papel de dinamização cultural que desempenha na cidade.


Em vésperas de sermos obrigados a identificar parcerias com outras instituições de ensino superior (o que há muito se anunciava) com vista, nomeadamente, à regulação da oferta formativa e à partilha de resursos, afigura-se ser útil conhecer as opções da Universidade de Évora quanto ao estatuto de cada sector ou subsector do seu espectro de ciência e de ensino, no quadro de um eventual consórcio. Essa reflexão, a ter sido feita, não se espelha de todo no projecto de Plano de Desenvolvimento Estratégico reprovado pelo Conselho Geral ou quaisquer outros documentos. Receio que agora não haja oportunidade para o fazer dentro do curto prazo determinado pelo Ministério, mas convoca seguramente os candidatos a reitor à reflexão aberta e à expressão de propostas criativas.


É urgente dotar a Universidade de um Reitor e de uma reitoria que manifeste a capacidade de manter a porta da mente sempre aberta aos sinais de mudança, mas também a coragem para assumir as opções inerentes à governança estratégica, sendo certo que não existem opções sem dor nem estratégias gratuitas.

Publicado por lapenseenedoit às 10:58

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