Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2012

O futuro ao nosso alcance...com imaginação e coragem

 

Jorge Araújo

 

Em determinado momento da campanha presidencial americana, o conservador Mitt Romney acusa o Presidente de negligenciar a defesa nacional invocando o facto de a marinha, a Navy, ter actualmente menos vasos de guerra do que em 1916. Obama respondeu com o seu habitual humor “Well governor, we also have fewer horses and bayonets”…” We have these things called aircraft carriers and planes land on them. We have these ships that go underwater, nuclear submarines."

 

Este pequeno excerto do excepcional debate a que assistimos recentemente é paradigmático do confronto entre duas posturas antagónicas, a conservadora que encara os problemas do presente e do futuro com base em premissas do passado e a progressista que, perspectivando a realidade em constante mudança, sabe que se exigem novas ideias para resolver velhos e novos problemas.

 

Esta referência à campanha presidencial americana remete-nos para os constrangimentos com que as universida-des públicas se debatem em resultado da retracção do financiamento estatal; isto é, para uma crise que se arrasta há alguns anos, mas cuja agudização põe em risco a sustentabilidade de algumas instituições de ensino superior.

 

Como todas as crises – e nunca é demais recordar que a etimologia da palavra crise nos conduz ao grego krisis, que significa decisão – aquela que a universidade portuguesa vem atravessando há largos anos obrigará, a breve trecho, à tomada de decisões que se fundamentarão em ideias novas e, seguramente, arrojadas. Quem, há poucos anos, ousaria vaticinar a fusão das duas grandes universidades de Lisboa?

 

A progressiva retracção do Estado relativamente ao financiamento da sua rede de ensino superior vem-se acentuando, com algumas descontinuidades, desde os últimos anos do século passado. Esta realidade, que consubstancia um descomprometimento do Estado para com a valorização dos cidadãos, o recurso mais precioso de que dispõe uma nação, deve merecer, no plano académico, uma resposta pragmática e inteligente. Na verdade, às instituições de nada lhes serve “chorar sobre o leite derramado” e assumir uma postura lamurienta ou insistir em ideias velhas. Cabe-lhes sim serem capazes de ler e interpretar os sinais dos tempos e conceber soluções inovadoras que lhe confiram uma capacidade acrescida de superar os constrangimentos.

 

Basicamente, essas soluções deverão visar (i) a diminuição dos encargos inerentes ao funcionamento, concomitantemente com (ii) o reforço da qualidade da oferta formativa, (iii) a salvaguarda dos seus recursos humanos, (iii) a extensão a novos públicos, (iv) o incremento da capacidade científica, (v) o reforço da internacionalização.

 

Quais os recursos de que a Universidade de Évora dispõe para atingir estes objectivos? Podem-se destacar cinco, entre outros: (i) a total autonomia para estabelecer parcerias com instituições congéneres, nacionais e estrangeiras; (ii) o acesso às mais avançadas tecnologias de informação e comunicação; (iii) os programas europeus de mobilidade internacional; (iv) a receptividade por parte de entidades empresariais para o estreitamento de relações de interesse recíproco; (v) um relatório de avaliação internacional pela EUA (European University Association) que sugere um conjunto de acções pertinentes.

 

 

As parcerias

Sob a designação genérica de parceria imaginam-se diversos figurinos que vão da fusão ao consórcio e, deste, às redes neuronais. Todos visam, em última instância, a partilha de recursos com vista a uma maior eficiência no cumprimento do serviço público que é a sua razão de ser.

As parcerias podem destinar-se apenas à aquisição de bens e serviços em comum (central de compras) ou à partilha de plataformas informáticas de apoio à gestão, ou à leccionação de idênticas disciplinas em diversas instituições recorrendo a uma mesma equipa docente, ou ainda à partilha da responsabilidade por um determinado curso ou, mesmo, à repartição dos cursos entre diversas instituições em função das respectivas competências próprias, etc. As parcerias desenhadas em modelo de rede neuronal podem facilmente estender-se a instituições estrangeiras com a vantagem de poderem configurar-se em moldes compatíveis com programas europeus e beneficiar de fundos comunitários.

Note-se que a Universidade de Évora foi uma das primeiras a protagonizar um processo de fusão. Refiro-me àquele que conduziu à integração da Escola Superior de Enfermagem São João de Deus.


 

 Tecnologias de Informação e Comunicação

As TIC potenciam não só a comunicação bidireccional a distância como o acesso quase ilimitado ao conhecimento, gratuitamente. Esta realidade não pode deixar de estar presente, se não mesmo presidir, às soluções que vierem a ser delineadas.

Note-se que, mercê de uma aposta estratégica concretizada no passado, a Universidade de Évora encontra-se ligada à rede que une todas as instituições de ensino superior, através de uma conexão que suporta o débito de 1 Gb, cerca de cinco vezes superior ao que utiliza actualmente.

Note-se ainda que a Universidade de Évora dispõe de um corpo técnico excepcionalmente qualificado que tem demonstrado ser capaz de responder aos desafios da modernização da UÉ como também de instituições parceiras.


 

 Mobilidade internacional

Os programas de mobilidade internacional, encarados habitualmente como direccionados unicamente para os estudantes, destinam-se, na realidade, também aos docentes. O recurso a docentes estrangeiros pode constituir o meio de suprir determinadas carências sobretudo no que concerne à leccionação de determinadas unidades curriculares fulcrais.

 


 Ligações universidade/empresa

A experiência mostra que é possível suscitar o interesse das empresas tanto regionais como nacionais. Esta receptividade ficou demonstrada em diversas ocasiões, quando se lançaram projectos inovadores como o das licenciaturas sanduíche universidade/empresa ou das cátedras de investigação.

 


 O relatório de avaliação externa

A Universidade de Évora foi objecto de um processo completo de avaliação internacional por parte da European University Association. Esta avaliação, por nós solicitada, teve essencialmente dois méritos: por um lado, satisfez um requisito essencial para que a UÉ ombreie com as universidades europeias na Rede Europeia do Ensino Superior e, por outro, proporcionou-nos um conjunto de concelhos judiciosos, incluídos no relatório final de avaliação, que importa não menosprezar.

 

*

 

A procura de soluções que salvaguardem a nossa capacidade de cumprimento do serviço público de ensino, de investigação científica e de criação artística, impõe-se com extraordinária urgência. Quaisquer que sejam os fundamentos do programa de austeridade a que o país está submetido, as restrições de financiamento do ensino público não cessarão em qualquer dos cenários políticos verosímeis. Consequentemente, os constrangimentos impostos às universidades conduzirão a regimes de penúria financeira que induzem a perda de autonomia administrativa por impossibilidade de cumprimento dos normativos legais e, por último, também a perda da autonomia académica por debilidade do corpo professoral.

 

O futuro da Universidade de Évora dependerá da visão e da capacidade estratégica dos seus órgãos de governo, da coesão interna e da coragem que for possível mobilizar para enfrentar desafios que obrigam incontornavelmente à tomada de opções.

 

 

Publicado por lapenseenedoit às 12:47

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