Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

Três modos de montar uma bicicleta

Quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

Jorge Araújo

 

Há duas maneiras de nos mantermos em cima de uma bicicleta: ou parados com um pé em terra (ou os dois) ou a pedalar. Neste último caso, a Física explica o fenómeno remetendo-nos para o conceito de momento angular…mas não vamos por aí.

A primeira solução é, de longe, a mais estável. Podemos manter-nos indefinidamente sentados no selim, aproveitar para descansar, fumar um cigarro, observar a paisagem, conversar com alguém que passe, quiçá namorar, sem correr qualquer risco de tombar. O tempo passa por nós mas, enquanto nos mantivermos naquela postura não somos confrontados com qualquer opção de virar à esquerda ou à direita; de ir em frente ou voltar para trás, de subir ou de descer, por exemplo. Mais, quem nos vir até acreditará piamente que sabemos andar de bicicleta! Será que sabemos ou estamos apenas a procurar iludir; a épater le bourgeois?

A segunda solução é deveras mais perigosa. Ao deslocarmo-nos de bicicleta podemos embater num calhau e estatelarmo-nos. Podemos não controlar as forças que agem naquele complexo sistema físico e perdermos o equilíbrio. Podemos enganarmo-nos no caminho e, em vez de seguir em frente, virar à direita e enveredarmos por uma via sem sentido. Tudo isso é verdade e, ao longo da vida, aprendemo-lo por experiência própria; na nossa “caixa negra” temos registo de incontáveis acidentes e desvios de percurso. Mas sabemos também que só pedalando, enfrentando riscos, se avança. Não há progresso sem risco. O erro, o acidente…por vezes a multa…são inerentes a quem pedala para alcançar objectivos.

Não nos iludamos, parados com um pé em terra podemos posar para o fotógrafo e marcar presença no álbum de família, mas não vamos a lado nenhum!

Comecei por referir duas possibilidades de nos mantermos em cima de uma bicicleta mas, na verdade, há três. Estava a esquecer-me da bicicleta estática, aquela que nem rodas tem, apenas um quadro, uma barra de apoio para as mãos e uns pedais. Esta oferece uma situação híbrida: não sai do seu sítio mas em lugar de transmitir uma imagem diletante do ciclista, calça à golf e boné de tweed, mostra-o cansado, ofegante, transpirando esforço. O ciclista pedala, pedala e oferece de si a um observador incauto, a imagem de quem prossegue um objectivo; e que o prossegue tenazmente! Mas em boa verdade, não sai do mesmo ponto. É um esforço inglório, sem outro fim que não seja o de despender calorias ou, eventualmente, exercitar o cálculo mental enquanto, em simulação, sobe montanhas ou desce vales profundos: muita média, pedaladas /hora, calorias/pedalada, pedaladas/quilómetro; enfim, muita conta.

Para estes “ciclistas”, o Mundo é uma realidade que deve ser conservada, no essencial, como está. O medo, o medo do escuro que inunda os trilhos desconhecidos, o medo do próximo que os pode enganar, o medo de errar e ser penalizado, domina-os. O medo inibe-lhes o pensamento criativo; a desconfiança paralisa-lhes a acção. Qualquer mudança do Mundo que os instigue a tomar decisões e opções, é-lhes insuportável.

Nada disto teria muita importância não fosse dar-se o caso, como nos lembra Jacques Brel numa das suas canções-poema, inolvidável, que qui n’avance pas, recule!

 

 

Publicado por lapenseenedoit às 09:50

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