Segunda-feira, 27 de Agosto de 2012

A privatização do Governo

 

Jorge Araújo

 

A notícia apanhou o executivo desprevenido, no rescaldo da festa do Pontal, a tal ponto que ainda não sabe como a dar a conhecer ao país: a Troika aceita a derrapagem do défice, este ano, para 5,6% do PIB porque já não há tempo para inverter a deriva das contas públicas mas, em contrapartida, exige a privatização do Governo, mais exactamente, a sua entrega em outsourcing a uma equipa profissional seleccionada.

Desde há alguns dias que, nos meandros do poder, a coisa se sussurra. O ministro das finanças, Victor Gaspar, foi o primeiro a ser informado em privado quando da sua recente viagem a Bruxelas, onde se deslocou numa tentativa de amenizar os ânimos, de aplainar o terreno junto do Banco Central Europeu e do governo alemão, com vista a uma aceitação despenalizada dos maus resultados financeiros (do lado da economia, já nem se fala…) agora que os senhores da Troika nos vêm examinar, salvo erro, na próxima quinta-feira. Ao chegar à Portela, enviou de imediato um estafeta à estância balneária da Manta-Rota.

A preparação dos portugueses para o choque foi entregue ao cuidado do Prof. António Borges, o qual concebeu uma forma ardilosa de introduzir o assunto, preparando o público para a justificação de fundo e, simultaneamente, desviando a atenção e a indignação dos portugueses para uma situação relativamente menor, a tal concessão da RTP e da RDP (incluindo o serviço público) a um operador privado que, segundo consta, emanará do círculo de influência do Eng.º José Eduardo dos Santos.

Quem tiver prestado atenção à entrevista do Prof. António Borges à TVI, terá reparado que, a certa altura, perante a contundência respeitosa de Edite de Sousa, ele fez uma afirmação que constitui, na verdade, o cerne da sua mensagem: o privado gere sempre melhor que o público.

Uma vez generalizada a aceitação desta “verdade”, a transposição para a gestão do Estado afigura-se evidente. Tanto mais quanto é certo que o Governo deu provas inequívocas de incompetência: aumentou o desemprego para níveis nunca vistos e exauriu as famílias, debilitou drasticamente a economia, aumentou a dívida e, a cereja em cima deste bolo amargo, não conseguiu controlar o défice, deixando-o a anos-luz da meta imposta pelas instâncias internacionais que, guiadas pela solidariedade que é devida à mais antiga nação consolidada da Europa, nos quiseram salvar da bancarrota emprestando-nos dinheiro a juros “módicos”.

 

Constata-se, com efeito, que o Governo não fez melhor do que as gerências da TAP, da RTP, do Metro ou da Carris: alargou a cratera!

Assim sendo, não resta outra solução senão a privatização. Sabe-se que a coisa vai processar-se por concurso internacional e, embora alguns portugueses aspirem ao cargo de PM nesta nova modalidade (o próprio António Borges já terá enviado um bilhetinho à Frau Merkel), poucas hipóteses terão perante o interesse manifestado por Tony Blair, actualmente em inactividade política. Tony Blair, para além da sua experiência adquirida como primeiro-ministro britânico durante 10 anos, domina fluentemente o inglês propriamente dito e tuteia toda a classe política europeia. Para além de que, sendo trabalhista (terá o apoio do PS), sempre seguiu uma dita “terceira via” que mais não era do que uma versão pessoal do liberalismo – um social-liberalismo.

Num primeiro tempo, o povo perguntará cadê da democracia?

Essa, na verdade, é uma questão para a qual os arautos do poder já têm a resposta aprontada: a democracia consubstancia-se, em primeira instância, na eleição da Assembleia da República. Este é o Órgão fundamental, a “casa da democracia” a quem compete aprovar os programas políticos e as leis que lhes dão suporte, bem como exercer o controlo sobre os actos do Governo. Há ainda o Tribunal Constitucional que sempre, atempada e pressurosamente, adverte o Governo dos deslizes que poderão pôr em causa o respeito pela Lei Fundamental. E, em última instância, o Presidente da República, o mais alto magistrado das Nação, que através do facebook, mantém o povo em alerta e admoesta os governantes europeus e as agências financeiras.

O Governo, em boa verdade, é apenas uma equipa executora; quanto mais experiência de governação tiver, melhor preparação académica demonstrar e maior for o seu quilate intelectual, melhor fará seguramente o serviço que lhe for atribuído.

Consta ainda que o etíope Abebe Selassie, chefe de missão da Troika, traz outras pequenas medidas adicionais no seu attaché case como a privatização das forças armadas e da GNR (ou, em alternativa, a concessão dos quarteis e do respectivo armamento) com a incumbência expressa de rendibilizarem os submarinos. Novas e aliciantes perspectivas para o turismo bentónico que arrancariam um sorriso ao capitão Nemo.

Publicado por lapenseenedoit às 22:54

Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
|

.Abril 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.Pesquisar neste blog

 

.subscrever feeds

.Posts recentes

. Doutoramento Honoris Caus...

. Foi há 50 anos!

. Academia do Sul

. Rui Nabeiro, solidário e ...

. A irmã Lúcia ao Panteão!

. Academia do Alentejo

. Estratégia, precisa-se

. Estado Padrão - Estado La...

. Fim de linha

. Uma morte anunciada

.Arquivos

. Abril 2017

. Novembro 2014

. Abril 2014

. Janeiro 2014

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Abril 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

.Mais sobre mim

.Fotos