Quarta-feira, 11 de Julho de 2012

A Guerra dos Mundos

Jorge Araújo

 

Ao aperceber-me do pânico suscitado pelo meu anterior texto, “Privatização da Universidade de Évora”, em certos sectores da nossa Academia, não pude deixar de recordar o efeito catastrófico provocado pela emissão radiofónica realizada por Orson Wells em 1938, “A Guerra dos Mundos”, baseada na obra homónima do britânico Herbert George Wells, pai da ficção científica. A dita emissão radiofónica consistiu numa pseudo-reportagem da invasão da Terra por marcianos. A simulação foi de tal modo convincente que o pânico generalizou-se entre a população, provocando o desnorte e até mesmo, segundo consta, suicídios.

 

Espero vivamente que ninguém se suicide com medo do “perigo amarelo”!

 

Porque, se efectivamente existe, não chegou nem chegará através de mim. Pese embora a simpatia incorporada em cada chinês, se existe algum fundamento para o medo, esse resulta do facto de o património nacional estar a ser alienado, não a chineses, mas ao Estado Chinês, aquele mesmo que assenta a competitividade em baixos salários, no total desrespeito pelos direitos humanos e pelos direitos intelectuais; aquele mesmo que promoveu o desenvolvimento industrial da China aliando-se às empresas europeias e americanas que encararam o paradigma chinês como um eldorado da livre exploração e do máximo lucro.

 

Se existe algum perigo, esse advém da irresponsabilidade das políticas em vigor no nosso país e dos senhores que as promovem.

 

Herbert Wells, com a sua obra, pretendeu alertar os seus leitores para o colonialismo e para a intolerância, e Orson Wells recorreu magistralmente a radiofonia para ampliar o efeito pretendido pelo autor.

 

Todas as diferenças ressalvadas, eu pretendi alertar para o extremo a que nos poderia levar a fúria privatizadora dos nossos governantes, recorrendo à sátira; mas também para a ausência de perspectivas de desenvolvimento associadas ao famoso Plano Estratégico de Desenvolvimento proposto pela Reitoria e recentemente chumbado pelo Conselho Geral.

 

Mas, “blague” à parte, reitero que a debilidade a que a Universidade de Évora chegou, em virtude do total desmoronamento da pirâmide hierárquica do corpo docente, oferece argumentos à tutela para intervenções de cariz economicista (encerramento, submissão à tutela de outra universidade, etc.). Com efeito, em muitas das áreas científicas onde será necessário abrir concursos, a UÉ já não encontrará no seu corpo docente, professores de topo de carreira que assegurem, ainda que parcialmente, a composição dos júris.

 

Não está em causa a competência científica dos professores auxiliares da UÉ, mas sim a sua capacidade de assumir determinadas responsabilidades inerentes ao edifício académico, de acordo com a Lei. Está em causa a acreditação dos cursos e, de acordo com o Estatuto da Carreira Docente, estará em causa, dentro de dois anos, aproximadamente, a própria acreditação da Universidade de Évora.

 

Podemos encarar a situação de diferentes modos: procedendo como a avestruz e murmurando para os nossos botões a clássica portuguesa “não há-de ser nada”; acatando respeitosa, silenciosa e humildemente a superior inoperância; ou procurando alertar para a necessidade, urgente, de alterar o rumo da Instituição, antes que nos imponham uma comissão liquidatária.

 

Por muito que custe a alguns colegas, eu assumo o meu estatuto de Professor Emérito da Universidade de Évora com muita honra,  muita seriedade e muita responsabilidade, mesmo quando recorro à sátira.

 

E enquanto puder, custe a quem custar, continuarei a dizer que “o rei vai nu!”, sempre que ele assim se nos apresentar, mesmo que venha disfarçado com um qualquer “ manto diáfano de fantasia”.

Publicado por lapenseenedoit às 12:23

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