Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Privatização da Universidade de Évora

 

Jorge Araújo


Embora há muito se cochichasse nos bastidores, começam-se agora a conhecer, na sequência das visitas de Estado dos ministros Paulo Portas à China e Álvaro Pereira a Angola, os contornos da privatização da Universidade de Évora. Esta operação, que renderá, segundo se diz, alguns biliões de euros ao Estado português, consta das agendas discretas dos dois ministros.


Na realidade, há um certo tempo que se sabia que tanto angolanos como chineses procuravam instalar na Europa uma universidade internacional vocacionada para a formação acelerada de altos quadros políticos e administrativos com destreza em, pelo menos, dois dos três idiomas maioritários, o inglês, o mandarim e o português. A localização em Portugal impôs-se de modo óbvio depois de a Troika ter constatado a existência de um número excedentário de instituições de ensino superior a cargo do Estado. Nessa perspectiva, a Universidade de Évora surgiu como uma forte candidata ao negócio. Financeiramente fragilizada, moralmente debilitada e localizada numa vasta região economicamente deprimida, mas com fortes tradições de ligação ao Oriente, pois foi dos seus claustros que saíram muitos dos missionários jesuítas que se dirigiram para a China, para o Japão e outros cantos do Mundo, a Universidade de Évora advogava a seu favor ainda o facto de ter albergado (no Conventinho do Bom Jesus de Valverde) o encontro entre os dirigentes do MPLA e da UNITA que antecedeu o acordo de paz, de Bicesse, em 1991. Facto que alguns angolanos não esquecem!


Ainda não se conhecem em definitivo os termos do negócio (se é que alguma vez serão revelados!), mas consta nos “passos perdidos” que os chineses terão escolhido, para Reitor, uma personalidade autóctone de inquestionável dimensão universitária e prestígio internacional, o Prof. António Borges. Este já teria feito saber que, dado o seu estatuto remuneratório e outras altas funções que exerce, só poderá desempenhar o cargo a título simbólico; a sua presença abrilhantará as cerimónias de abertura do ano académico e de outorga de doutoramentos honoris causa. Competirá ao Administrador exercer, de facto, o poder administrativo e académico, estando indigitado para estas funções, o Dr. Miguel Relvas. Dizem as más-línguas que se trataria de uma oferta para lhe proporcionar uma saída airosa do Governo. O mais provável, todavia, é que seja por uma questão de reconhecimento pelo seu passado académico, pelas suas incomparáveis qualidades de gestão mas, também, pela gratidão que lhe é devida, pois sabe-se que o Dr. Relvas foi, de facto, o grande obreiro desta operação de privatização, a primeira de que é objecto uma instituição pública não empresarial.


Pela 5 de Outubro fazem-se cálculos (especialidade do Ministro e de um ou outro Reitor) sobre a poupança que a privatização da Universidade de Évora induzirá no próximo orçamento do Ministério. E projecta-se a alienação de outras universidades e institutos politécnicos que pontuam a paisagem do interior.


Tanto chineses como angolanos pretendem preservar alguns aspectos simbólicos, como a pomba e o dia 1 de Novembro, para não ferirem susceptibilidades. Mas a universidade passará a denominar-se International Business University of Evora. Os actuais cursos serão mantidos em funcionamento durante os próximos cinco anos. Entretanto serão criados doutoramentos, obviamente mais curtos, em harmonia com os objectivos dos promotores. Aos funcionários, docentes e não docentes, será oferecida a oportunidade de conservarem os seus postos de trabalho mas, dada a necessidade de conviverem com colegas chineses, deverão obrigatoriamente aprender o mandarim (estágios previstos nas melhores universidades do Império do Meio).


Como sempre acontece nestas circunstâncias, os rumores sobrepõem-se e entrecruzam-se. Por exemplo, sussurra-se que os promotores chineses estariam interessados na competência evidenciada por alguns membros da actual reitoria em matéria de planeamento estratégico; estaria mesmo previsto um convite para assessoria de uma universidade …da Coreia do Norte.

 

 

Publicado por lapenseenedoit às 18:12

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