Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

A Universidade de Évora nos seus desertos

 

Jorge Araújo

 

Os censos mostram uma tendência regular para o abandono do território interior do país, pelas populações. Portugal nunca chegou, aliás, a alcançar, após a instauração da democracia, uma razoável equidade de distribuição dos bens civilizacionais entre “as cidades e as serras”. A procura de trabalho mas também o acesso facilitado aos bens de cultura, de lazer e a condições de bem-estar, explicam a deslocação das populações dos campos para as capitais de distrito e, destas, para as grandes cidades.

 

Este fenómeno tem suscitado uma preocupação menor junto dos últimos governos. As scuts terão sido o último pulsar de uma solidariedade para com as regiões do interior. Ao invés, têm sido aplicadas, em nome da gestão racional de recursos, políticas que desincentivam a fixação das populações e que geram uma espiral negativa conducente em última instância e por largos tempos, ao abandono de grande parte do país, pelas populações residentes.

 

O encerramento de escolas primárias com o fundamento de terem poucos alunos, desencoraja os jovens casais a permanecer nas aldeias de origem, tanto mais que os transportes públicos, que por especial favor ainda as servem, vão restringindo horários e circuitos, e o custo dos combustíveis exclui a alternativa de transporte individual. Nestas condições, os “cheques-bebé” que alguns autarcas ingenuamente distribuem na esperança de contrariar o efeito centrípeto das cidades, não surtem o efeito almejado.

 

A mesma lógica de racionalização que levou à supressão de escolas subjaz ao encerramento de postos da GNR e dos CTT, e ao definhamento dos serviços de saúde. O passo seguinte será a fusão de freguesias rurais que se traduzirá, objectivamente, em dificuldades acrescidas para uma parte da população idosa de acesso a serviços essenciais como o recebimento de pensões ou o pagamento dos consumos domésticos.

 

O Estado, reconheçamo-lo, na realidade, não tem recursos para sustentar a ocupação plena do território nacional e, a pretexto de falta de residentes, vai-se retirando, do mesmo modo que os herdeiros de grandes mansões, sem recursos para as manter, encerram quartos e salões e se confinam a uma parte do rés-do-chão. Porém, ao retirar-se, o Estado não vai sozinho; arrasta consigo uma parcela significativa da população que não se pode sujeitar a viver sem escolas, sem segurança, sem correios, sem transportes, sem cuidados de saúde e sem muitos outros serviços públicos inerentes ao modo de vida europeu. O comércio fecha as portas e os pequenos campos são abandonados.

 

Dentro de dez anos, os actuais inquilinos do interior terão desaparecido, sem que outros idosos os venham substituir nos bancos dos jardins.

 

Fenómenos, que no passado encavalitavam várias gerações sem que as pessoas, à escala das suas vidas, se apercebessem das remodelações que se operavam a nível da geografia humana, acontecem agora e sucedem-se diante de nós, tão velozmente que não podemos deixar de nos alarmar ao antever as respectivas consequências.

 

Capitais de distrito como Évora[1], Vila-Real[2] ou Covilhã[3] são baluartes de resistência à desertificação humana do interior mas devem em grande parte a sua resiliência à presença de universidades. Estarão, porém, as universidades em condições de resistir à depressão populacional das suas bacias naturais de recrutamento de estudantes?

*

Este é o contexto principal à luz do qual deveria estar a ser equacionada uma estratégia para a Universidade de Évora. Porque, na verdade, uma instituição de ensino superior pensada para cerca de 10.000 alunos presenciais é insustentável numa cidade de 60.000 habitantes se não houver clarividência para compreender o contexto, visão para descortinar os caminhos susceptíveis de conduzir ao futuro e coragem para assumir as opções que a sobrevivência impõe.

 

A rarefacção da população do interior do país é um dado para o qual os censos há muito nos alertam[4]. Embora seja um elemento primordial da configuração do contexto, haverá que conjugar esse aspecto com outros, como sejam o fenómeno de agregação que se observa entre instituições de ensino superior, o apelo à cooperação universidade-empresa, a nossa inserção em sub-redes europeias de ensino superior e de investigação científica, os programas de financiamento comunitário delineados para o futuro próximo, etc.

 

Para início de conjectenura, a Universidade de Évora terá de responder às seguintes cinco questões:

 

1. Entende que a UÉ conseguirá, sozinha, enfrentar com sucesso a concorrência da nova Universidade de Lisboa ou reconhece a necessidade de se consorciar urgentemente com outras instituições e delinear uma “resposta” estratégica?

 

2. Pretende manter a oferta de ensino dispersa por um largo leque de especialidades, indiscriminadamente apoiadas ou, ao invés, concentrar esforços na consolidação de uma oferta seleccionada com base na qualidade científica e no potencial de diferenciação que possa representar relativamente às outras universidades concorrentes?

 

3. Considera a criação do Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo um projecto megalómano e dispensável ou, inversamente atribui-lhe uma relevância estratégica na perspectiva do reforço do potencial científico e de inovação tecnológica da UÉ, bem como da ancoragem de toda a Rede Regional de Ensino Superior no tecido empresarial do país?

 

4. Afigura-se-lhe irrelevante a recomposição hierárquica do corpo docente ou, pelo contrário, considera urgente definir uma estratégia tendente ao cumprimento das metas inscritas, desde 2009, no ECDU?

 

5. Perspectiva a UÉ como uma instituição de ensino superior que acessoriamente faz investigação científica ou como uma instituição que se objectiva na produção do conhecimento e que, só nessa medida, é credível e confiável para formar as jovens gerações do país e promover a socialização do conhecimento sob todas as suas modalidades?

 

 

Contrariamente ao imaginário popular, o deserto é um ecossistema onde se cruzam diversos ramos das cadeias tróficas e onde os seres vivos desenvolvem estratégias espantosas de sobrevivência. O deserto demonstra que com “engenho e arte” é possível a muitas espécies de plantas, de animais, de fungos e de bactérias, cumprirem os respectivos ciclos de vida e perpetuarem-se em condições-limite de humidade, de temperatura e de teor em nutrientes. Por isso, o deserto é uma extraordinária fonte de inspiração e de encorajamento.

 

O “deserto de ideias”, pelo contrário, é fonte de desânimo e de estagnação.

 



[1] Entre 2001 e 2011, o concelho de Évora não perdeu população embora nos restantes concelhos do distrito se tenha registado uma quebra de 7% (INE).

[2] No mesmo período, Vila-Real de Trás-os-Montes cresceu 3,8% mas os restantes concelhos do distrito perderam 11% da população (INE).

[3] No mesmo período, o concelho da Covilhã perdeu 5% da população e nos restantes concelhos do distrito registou-se uma quebra de 5,9% (INE).

[4] No mesmo período, os distritos do litoral (Braga, Porto, Aveiro, Leiria, Lisboa, Setúbal e Faro) viram a população crescer 4,2% enquanto na globalidade de todos os outros distritos do continente, se registou uma contracção de 4,3%.

Publicado por lapenseenedoit às 18:37

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1 comentário:
De João Ponte-e-Sousa a 12 de Abril de 2012 às 14:33
Enquanto a agricultura portuguesa viver de "lobbistas" que do seu "lobby" fazem o truque para atacar fundos nacionais e comunitários, o deserto populacional do interior será incolonizável e de ideias criativas não se terá senão uma miragem! Falo porque sou do interior do Alentejo, daquele mais interior que há, onde vingou a negritude alentejana, vinda da Guiné para, à força de escravos, fazer o que hoje nem com as melhores alfaias alguns querem fazer...

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