Domingo, 1 de Abril de 2012

Um plano sem estratégia

Jorge Araújo

 

 

A elaboração de um plano estratégico constitui sempre um desafio aliciante não só pela reflexão que envolve mas sobretudo porque se espera que ele seja, de algum modo, um roteiro útil para o futuro.

 

No momento presente, esse exercício tem ainda o mérito de clarificar de que bordo estão os seus proponentes: do lado daqueles que se esforçam por segurar o passado ou dos que, pelo contrário, descortinam as oportunidades que o futuro oferece e se lançam no seu encalço.

 

Na verdade, a proposta de Plano Estratégico da Universidade de Évora, ainda em versão preliminar, identifica como principais vectores que devem presidir ao delineamento da estratégia da UÉ para os próximos anos, a internacionalização, a afirmação institucional pela qualidade e pela diferença; e reconhece ainda a “promoção do mérito” como um dos valores associados à missão da Universidade. Este simples facto parece indiciar um  distanciamento “ideológico” por parte da reitoria, relativamente a sectores paroquiais da sua base académica de apoio.

 

A iniciativa merece portanto apreço, pese embora o período a que se refere seja obviamente excessivo, sobretudo se se tiver em consideração a elevada taxa de mutação dos contextos. Basta recuarmos um pouco no tempo para nos reencontrarmos com variações de contexto que contradisseram as visões e tornaram inadequadas as estratégias então em vigor na UÉ. Note-se que os soviéticos, muito dados a planeamentos, não iam além dos cinco anos. Enfim, esse é, contudo, um aspecto relativamente pouco relevante do documento.

 

A proposta de Plano encerra dois tipos de deficiências cuja correção está ao alcance dos decisores: umas consistem num significativo défice de concretização; outras são omissões. Ambas são passíveis de interpretação preocupante.

 

Na realidade, o Plano proposto decepciona o leitor na concretização das orientações estratégicas: estas limitam-se a ser meras declarações de intenção (genericamente corretas, diga-se) mas sem qualquer laivo substantivo que permita aferir a credibilidade das espectativas, essas sim,  quantificadas (algumas com um grau de precisão que vai às décimas!) para 2013 e 2020.

 

Poder-se-ia pensar que se trata de uma opção dos proponentes, assente na ideia de que a definição das medidas concretas deverá ser objecto dos Planos de Atividade, anuais. Pois...mas então não se compreende, nem é aliás sustentável, a caracterização quantitativa e rigorosa de metas a alcançar.

 

A substantivação de orientações de cariz estratégico implica, em geral, a formulação de opções. Como quando nos orientamos no terreno, não basta dizer que “é para ali”, varrendo o horizonte com um gesto vago e displicente ; é necessário optar por uma estrada, por um trilho, por um azimute, entre diversos. E, não nos iludamos, contrariamente ao que enuncia o ditado, nem todos vão dar a Roma, pelo menos em tempo útil.

 

Por princípio, qualquer opção pressupõe lucidez e coragem para atuar assimetricamente. A afirmação expressa de que a “qualidade é transversal à Universidade”, indicia uma percepção deficiente da realidade que ilude as assimetrias qualitativas existentes em vertentes tão significativas para o delineamento estratégico como sejam a produtividade científica, a relevância do interface sociocultural, o potencial estratégico na perspectiva de uma desejável afirmação pela diferença, etc.

 

Uma leitura nivelante da realidade da UÉ é cómoda mas nefasta, porque, ao colocar todos os sectores no mesmo plano, sem diferenciação de ordem ou natureza, exime-se a qualquer assimetria de ação. Ora, não é segredo para ninguém que não há planeamento estratégico sem “dor”. Como aliás foi insistentemente frisado na comunicação recente da Dr.ª Luísa Sanches da Comissão Europeia, a instituição terá de fazer opções se quiser ter lugar no futuro.

 

A ausência de opções espelha-se precisamente na vacuidade das orientações estratégicas enunciadas. Este é seguramente um ponto fraco da proposta, tão fraco que tornará o Plano, se assim permanecer,  desinteressante para o presente e para o futuro.

 

O Plano é também omisso, ou quase, em três aspectos que são fulcrais, dos quais dependerá em última instância, a sobrevivência da UÉ. Refiro-me concretamente à (i) sustentabilidade financeira, (ii) à credibilidade académica e à (iii) formação de consórcios.

 

Não reconhecer que o subfinanciamento estatal é uma condição inerente ao futuro e não uma circunstância passageira, constitui uma falha grave porque desarma a instituição numa das frentes mais cruciais para a sua sobrevivência: a autossustentação financeira. Este é um dos domínios que não pode ficar dependente da iniciativa das Unidades, mas que deve ser objecto de uma política claramente assumida pelo governo da Universidade, embora não dispense o envolvimento ativo das Escolas.

 

A segunda questão decorre da Lei (ECDU): em 2015 o corpo docente das universidades deve compreender, no mínimo, 50% de professores catedráticos e associados. Esta não é uma meta estratégica, mas a Instituição não pode deixar de se munir de uma estratégia para a alcançar. Porquê? Porque disso depende a credibilidade académica da Universidade, a sua acreditação para atribuição de graus e, porventura, disso pode depender a sua autonomia ou, no limite, a sua própria existência enquanto instituição de ensino superior. Como a própria lei estipula, a Agência de Acreditação do Ensino Superior levará em consideração, no âmbito dos processos de avaliação e acreditação das instituições, o cumprimento destas disposições legais.

 

A formação de consórcios, questão à qual me referi em texto anterior, neste mesmo blog, afigura-se pelas razões que então expus, igualmente iniludível no contexto de um Plano Estratégico.

 

Em suma, considera-se meritória a iniciativa de procurar delinear um plano estratégico bem como positiva a “visão” apresentada, mas a proposta, em si, claudica por insuficiente substantivação das orientações e pela omissão no que concerne aspectos relevantes para a sobrevivência da Instituição. Afigura-se que às debilidades identificadas subjaz uma leitura condescendente da realidade institucional conjugada com falta de arrojo em definir opções assimétricas.

 

Na ausência de propostas concretas, o documento não suscita uma verdadeira controvérsia. Continuará a ser, obviamente aprovado em todas as instâncias!!!

Publicado por lapenseenedoit às 11:55

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