Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Por que falhou a UNESUL? ...Por que não pode falhar o Parque de Ciência e Tecnologia?

Jorge Araújo

                                                                                                                                                                                                             No passado dia 28 de Dezembro formalizou-se a criação da Sociedade Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo.

 

Congratulo-me pelo facto de ver concretizar-se mais uma etapa de um projecto que gizámos, ainda que num formato menos maturo, e pelo qual nos batemos durante o meu último mandato, vencendo múltiplas dificuldades, sobretudo aquelas que decorrem das idiossincrasias dos Institutos Politécnicos.

Congratulo-me porque considero do máximo interesse para o País, para as universidades e para as empresas que se criem condições para uma efectiva cooperação no plano de um desenvolvimento tecnológico que se projecte na inovação e, em última instância na qualidade da formação avançada e na competitividade empresarial.

Em boa verdade, estas não são preocupações novas. Expressei-as em 2 de Novembro de 1994, quando da inauguração do edifício sede da Unesul (actual Colégio Pedro da Fonseca) em presença do Ministro da Indústria e da Energia do XII governo constitucional, Eng.º Luís Mira Amaral.

A Unesul constitui-se em 1988 ao abrigo do Programa COMETT, também como um interface universidade-empresa, com a ambição de contribuir para o desenvolvimento regional através da formação e da transferência tecnológica. O projecto, como se sabe, correu mal. Cometeram-se erros graves. Os objectivos não foram alcançados, longe disso; foram desperdiçados recursos financeiros vultuosos e ainda hoje se arrasta uma situação liquidatária. O empreendimento da Unesul traumatizou a Região e chamuscou a imagem da Universidade de Évora que, desde o princípio, presidiu o Conselho de Administração.

Ao ouvir os propósitos e as expectativas expressas por alguns potenciais utentes das futuras instalações do Parque não posso senão recordar e recear que se cometam os mesmos erros. Seria imperdoável se assim acontecesse e as consequências recairiam gravosamente sobre a Região e sobre a Universidade. Por isso considero ser meu dever recordar alguns factos que, em meu entender, consubstanciaram os erros cometidos na concepção e na gestão do projecto Unesul.

Os erros a que me refiro agrupam-se em três categorias: (1) cedência ao oportunismo, (2) sobrestimação das capacidades científicas e tecnológicas da Universidade de Évora e (3) despreocupação pela sustentabilidade económica do empreendimento.

Entusiasmados pelos milhões de contos que todos os dias davam entrada no País (o que levou o Primeiro Ministro a comparar Portugal com um oásis), alguns viram neste projecto a oportunidade de terem os seus próprios laboratórios apetrechados e independentes da tutela científica e financeira da Universidade; para outros, era a oportunidade de "“fazer fortuna"” dando formação ou consultoria sem pôr em causa o estatuto de dedicação exclusiva.

O primeiro erro foi a reitoria ter cedido e permitido que o projecto se formasse de modo a acomodar esses interesses ilegítimos.

Este erro foi agravado pelo facto de a UÉ não ter ponderado a capacidade científica, técnica e operacional de alguns dos proponentes dos Centros Tecnológicos; como também não era líquido que as empresas da Região estivessem adquirentes dos seus serviços.

Uma vez prevalecidos os referidos interesses na formatação da Unesul, seguiu-se o dimensionamento e a concepção das infrastruturas que os deveriam acolher, bem como dos serviços de apoio técnico e administrativo. Daí resultaram os edifícios conhecidos, construídos em terrenos cedidos pela Câmara Municipal, destinados a alojar um vasto conjunto de Centros Tecnológicos que contemplavam as tecnologias do ambiente, da energia e da informática, as biotecnologias e as agro- indústrias, mas também as artes e indústrias artesanais, o desenvolvimento dos recursos humanos bem como dos meios rural e urbano e ainda um centro de incubação empresarial, o CIEA. Criaram-se ainda pólos em Beja e em Setúbal.

No total, a Unesul obteve um financiamento do PEDIP no montante de 916 mil contos, que cobria 80% dos encargos com as edificações e com o equipamento. Os restantes 20% foram realizados com recurso ao crédito bancário.

No ano em tomei posse do cargo de Reitor da UÉ e, por inerência, o de Presidente do Conselho de Administração da Unesul, foram inauguradas as instalações em presença do Ministro da Indústria e da Energia. Já nessa época a Unesul dispunha de um Administrador Delegado e de um vasto corpo técnico e administrativo que contribuía para um encargo mensal superior a 4.000 contos!

Durante um ano, salvo erro, a Unesul beneficiou de um financiamento específico para o funcionamento, que escamoteou a situação assustadora que estava criada. Uma vez extinto o referido financiamento, a insustentabilidade financeira do projecto surgiu em toda a sua dimensão. As dívidas ao fisco avolumaram-se e impossibilitaram o recebimento de diversos subsídios a que a Unesul ainda tinha direito. Em 1997, a dívida aos Bancos ultrapassava os 92 mil contos.

Em 2000, a perspectiva de falência era mais que provável. Contudo, a UÉ conseguiu afastar esse cenário e obter da parte da Comissão de Credores e do Tribunal um plano de recuperação em cinco anos. Este plano contemplava a alienação do património (terrenos, edifícios e equipamentos). A maioria dos edifícios, dos lotes de terreno e os equipamentos acabariam por ser adquiridos pela UÉ. O resto da estória dispenso-me de narrar.

Embora a associação Unesul congregasse cerca de 100 associados, é indubitável que o mérito da iniciativa bem como a maior responsabilidade pela falência do projecto cabe à Universidade de Évora. A capacidade científica e técnica da UÉ era incipiente como débil era o tecido empresarial circundante. A previsão das receitas foi empolada, subestimados os encargos de funcionamento e, consequentemente, negligentemente equacionado o problema da sustentabilidade económica do empreendimento.

É verdade que a situação de hoje é diferente. Na UÉ identificam-se sectores com elevada competência, tanto nas Ciência e Tecnologias como nas Artes, e existem empresas com quem, desde há tempos, se estreitaram relações. Contudo, afigura-se-me pouco judicioso investir uma parte considerável do financiamento acordado, mais uma vez, na construção de edifícios. E, sobretudo, precisamente, começando pelo betão quando se sabe que grande parte do sucesso do empreendimento dependerá essencialmente das competências e dos equipamentos.

Nesta perspectiva, afigura-se-me judicioso equacionar outra solução. Esta compreenderia a reafectação das instalações da UNESUL ao seu objectivo primordial, localizando aí os laboratórios tecnológicos mais pertinentes e que maiores garantias oferecessem para a sustentabilidade económica do Parque. Novas construções seriam sempre possíveis de erigir nos lotes de terreno, livres, da própria Unesul.

Creio que seria possível fazer valer o valor do património edificado a título de contrapartida nacional do financiamento comunitário.

 

Resta, naturalmente, a questão inerente ao realojamento do Colégio Pedro da Fonseca. Afloram-se-me ao espírito diversas soluções possíveis e comparativamente mais vantajosas para sediar os Departamentos de Pedagogia, Filosofia e Psicologia. Antes de nos lançarmos na construção de novos edifícios, seria judicioso aproveitar os que já existem na Cidade que, se não estão, vão estar devolutos a breve prazo.

 

Citando Cícero, é próprio do homem errar. A nenhum, a não ser ao louco, é próprio perseverar no erro.

Publicado por lapenseenedoit às 19:49

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