Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Rien n’est jamais acquis

 

Rien n'est jamais acquis à l'homme Ni sa force

Ni sa faiblesse ni son cœur Et quand il croit

Ouvrir ses bras son ombre est celle d'une croix

Et quand il croit serrer son bonheur il le broie

Sa vie est un étrange et douloureux divorce

 

Louis Aragon, 1946

 

 

 

Jorge Araújo

 

 

Nada está definitivamente assegurado, lembra-nos o poeta. A nível individual como a nível das instituições, a felicidade, a saúde, o sucesso, o progresso ou a sobrevivência num dado momento são o resultado das circunstâncias e do equilíbrio de forças antagónicas. A deslocação do ponto de equilíbrio a favor dos nossos intentos implica um esforço constante orientado por uma visão clara dos factores em presença. Rien n’est jamais acquis, tudo pode voltar atrás, tudo pode desmoronar no momento seguinte por deficiente leitura do quadro envolvente, por displicência ou inoperância.

 

Em suma, nada é irreversível. Os exemplos abundam de instituições ou de empresas que, por que nos habituámos a vê-las como parte integrante do nosso mundo, considerávamos indestrutíveis. E, contudo soçobraram. Foi o caso da Kodak.

 

A Kodak foi criada em 1888. George Eastman, o seu fundador, inventara poucos anos antes algo que viria a revolucionar a fotografia, a película fotográfica. A substituição do vidro como suporte das emulsões fotográfica pelo celulóide permitiu miniaturizar as máquinas fotográficas e carregá-las com um rolo com capacidade para dezenas de fotografias. As primeiras máquinas Kodak ofereciam a possibilidade de tirar 100 fotografias com um só rolo. Em 1900, a Eastman Kodak Company lançou a Brownie, que era vendida a 1 dólar e popularizou a fotografia não só nos Estados Unidos mas no Mundo inteiro.

 

A Portugal, a Kodak chegou em 1919, já depois de ter feito a cobertura da 1.ª Guerra Mundial. Data de então a generalização dos álbuns fotográficos de família e, embora outras marcas tenham surgido posteriormente, nomeadamente a Fuji em 1934, todos temos a percepção de que Kodak era, de longe, a marca preponderante.

 

Kodak sobreviveu ao suicídio de George Eastman, ocorrido em 1932, e acompanhou com grande sucesso a transição tecnológica para a fotografia a cores, já em plena competição com outras grandes empresas do ramo, como a Ilford e Agfa, tornando-se inquestionavelmente um gigante da indústria fotográfica a nível mundial.

 

Todavia, em Janeiro de 2012, a Kodak, a grande pioneira da fotografia massificada a quem a humanidade deve efectivamente a memória visual do século XX, abriu falência! Fechou!

 

Segundo Robert Burley, professor da Universidade de Reyrson, de Toronto, a Kodak era “uma empresa presa no tempo”. Na verdade, o que é apontado à Kodak é não se ter adaptado à era digital e não ter inovado em diversas frentes como o fez, por exemplo, a Fuji, que oferece ao mercado um leque diversificado e inovador de produtos nomeadamente nos campos da fotografia, da imagiologia médica e da impressão gráfica.

 

 

O facto de as nossas primeiras fotografias, nossas e de milhões de pessoas em todo o Mundo, terem sido tiradas com películas Kodak e, eventualmente, com aparelhos Kodak[1], não pesou na decisão de encerrar a empresa, tal como o facto de milhares de pessoas terem nascido na Maternidade Alfredo da Costa não constitui um argumento que impeça aquela instituição secular de ser encerrada.

 

 

Ainda é cedo para dispormos de informação suficiente que nos habilite a aquilatar as razões que subjazem à intenção de encerrar a MAC. Mas uma elação poderá ser tirada, desde já, sem risco de errar: no actual contexto político, os gestores do Estado não hesitam em fechar uma instituição secular e prestigiada se considerarem que existem soluções alternativas menos onerosas para o erário público.

 

 

Estará o ensino superior ao abrigo de operações semelhantes? Com o devido respeito por aqueles que crêem na imutabilidade do Mundo e ainda não interiorizaram o conceito de perspectiva, opino que não, que mais dia, menos dia, um Governo virá que agendará a reorganização do ensino superior, invocando, a justo título, a necessidade de racionalizar a oferta formativa entre as 19 universidades públicas [2] e os 22 Institutos e escolas politécnicas públicas [3], tendo em conta a diversidade de cursos ministrados pelas instituições de ensino superior privado[4] e concordatário[5]. Receio, contudo, que essa reorganização não leve em conta as assimetrias regionais; antes pelo contrário, as amplifique na base de uma pura racionalidade economicista.

 

Este é um cenário mais que provável para o qual as instituições se devem rapidamente preparar, assegurando economias de escala, ganhando dimensão competitiva, identificando as suas áreas âncora e consolidando-as através de teias de relações regionais e internacionais, e ainda alargando a sua base de recrutamento de alunos com recurso, designadamente, às tecnologias de informação e comunicação.

                                             

Como disse Victor Hugo, saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzida no presente é o segredo de um bom governo.

 

 

Mas para tanto não nos podemos comportar como a avestruz.

 

 



[1] Mesmo se não fossem de marca Kodak, as câmaras fotográficas eram popularmente designadas por “kodaks”.

[2] Inclui as 4 Escolas Militares (Academia da Força Aérea, Escola Naval, Academia Militar, Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna) (DGES).

[3] Inclui a Escola Superior de Tecnologia Militar e Aeronáutica e a Escola de Serviço de Saúde Militar (DGES).

[4] O ensino superior privado reparte-se por 39 estabelecimentos de ensino universitário e 60 estabelecimentos de ensino politécnico (DGES).

[5] O ensino superior concordatário é ministrado em 18 estabelecimentos da Universidade Católica implantados em 6 cidades (DGES).

Publicado por lapenseenedoit às 16:38

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Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

As prioridades da biblioteca de Constantinopla

Jorge Araújo

 

Corriam os meses de Abril e Maio do ano de 1453. Narra a história que enquanto Constantinopla era assediada pelos turcos otomanos e Constantino XI passava tractos de polé tentando resistir aos 80.000 ululantes que cercavam a cidade e cobiçavam o império Bizantino, os sacerdotes cristãos, reunidos em concílio, discutiam se os anjos tinham ou não sexo. O responsável pela dúvida terá sido Abraão pois quando três anjos (primeira aparição destes mensageiros de Deus) o visitaram após se ter feito circuncisar, a fim de se inteirarem da sua saúde e do seu bem-estar, o Patriarca ou não prestou atenção, o que é duvidoso, ou ter-se-á coibido de revelar o que vira aos vindouros, por questões de pudor. Ora bem, essa omissão, datada de 20 séculos antes de Jesus, atormentou a humanidade durante os 20 séculos de cristianismo.

 

O facto é que a polarização das mentes mais sábias de Constantinopla para esse assunto, que sendo de veras importante, não seria o mais pertinente, fez com que não fossem envidados esforços suficientes na procura de soluções criativas para a defesa da cidade. Enquanto prosseguia a acesa discussão entre os sacerdotes, Constantinopla, como se sabe, foi invadida e saqueada. Não sete vezes como se diz, mas apenas durante um dia pois o novo imperador queria fazer dela a capital do Império Otomano.

 

A história é menos exuberante na narração de outro facto ocorrido, em simultâneo. Alheados do problema de género, que tanto pesava sobre a humanidade, e despreocupados com o que se passava às portas da cidade, um grupo de doutores, reunidos no salão nobre da Biblioteca de Constantinopla, confrontava-se com uma vasta agenda de trabalhos na qual se destacavam dois pontos essenciais: a reorganização dos secretariados e a derrogação das normas que impediam os bibliotecários auxiliares de ascender a lugares de chefia. 

 

É duvidoso que os doutores não tenham chegado a soluções sábias e consensuais, após vários adiamentos e minuciosos esclarecimentos sobre as regras de afectação de espaços e funcionários. Mas não há registo dessas decisões pois estavam as actas a ser copiadas e a tinta ainda fresca, já os turcos lhes deitavam as mãos para acender fogueiras.

 

Nesse tempo, Constantinopla passou um mau bocado, é certo, mas a partir do seu casco ergueu-se Istambul onde a Europa e a Ásia se cortejam. O poder passou de mãos cristãs para mãos otomanas, o trono de Constantino foi ocupado por Mehmet II, as hortas continuaram a ser cultivadas, as crianças a nascer e a Biblioteca foi recuperada. O Mundo continuou a girar nos seus gonzos e, visto de longe, a queda de Constantinopla configura-se como uma etapa, seguramente dramática para quem a viveu, da transição da Idade Média para o Renascimento.

 

Se nos situarmos no próximo século, olhando para trás, podemos imaginar-nos a analisar, com a frieza do distanciamento, os factores socioeconómicos e outros que terão determinado a evolução, quiçá o declínio ou a extinção de Évora ou da Universidade. Esses factos terão a importância que lhes derem os doutorandos que os adoptarem como tema de estudo. Não mais, pois as crianças continuarão a nascer, as hortas a produzir alfaces e o Mundo a rodar nos seus gonzos.

 

Tal como hoje pouca relevância atribuímos ao que aconteceu naquela madrugada de 1759 quando a Universidade de Évora foi cercada pelas tropas reais e encerrada, também os nossos vindouros do séc. XXII não sentirão que as suas vidas terão sido afectadas pelo que acontecer aqui e agora.

 

Porém, aqui e agora estamos nós. Nós, inseridos numa malha social, com a legítima ambição de que a Região nos proporcione as melhores condições de vida, isto é, trabalho, cuidados de saúde, estímulos culturais e, de modo geral, acesso aos bens civilizacionais. Nesse sentido, a Universidade representa, simultaneamente, a fonte de rendimento mas também o principal factor de resiliência da Cidade e da Região face ao tropismo social que tende a esvaziar o interior do território.

 

Numa época em que as instituições se justificam não por terem simplesmente uma fachada e uma história mas pela mais-valia que representam para a comunidade que as sustenta, importa que desenvolvamos uma estratégia portadora de argumentos fortes para que seja pertinente, aos olhos dos gestores do Estado, a afectação de recursos públicos à Universidade de Évora e, consequentemente, a sua manutenção.

 

Naquela primavera de 1453, os habitantes de Constantinopla temiam por si e pelos seus bens; viveram semanas de extrema angústia esperando, em vão, que os mais sábios encontrassem uma solução.

 

Tal como naquele tempo, é importante que não nos deixemos enredar por questões que só talvez venham a ter alguma relevância se a instituição, no seu todo, quiser figurar no mapa do amanhã. Esse objectivo não será alcançado apenas pelo empenhamento de alguns voluntaristas elucubrando no segredo das suas celas; implicará a mobilização do pensamento e da cultura de uma maioria de docentes e de funcionários técnicos e administrativos, mas também dos estudantes, e a assunção de uma vontade colectiva.

 

Dito de modo sucinto: actuando democraticamente.

Publicado por lapenseenedoit às 19:54

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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

A Universidade de Évora nos seus desertos

 

Jorge Araújo

 

Os censos mostram uma tendência regular para o abandono do território interior do país, pelas populações. Portugal nunca chegou, aliás, a alcançar, após a instauração da democracia, uma razoável equidade de distribuição dos bens civilizacionais entre “as cidades e as serras”. A procura de trabalho mas também o acesso facilitado aos bens de cultura, de lazer e a condições de bem-estar, explicam a deslocação das populações dos campos para as capitais de distrito e, destas, para as grandes cidades.

 

Este fenómeno tem suscitado uma preocupação menor junto dos últimos governos. As scuts terão sido o último pulsar de uma solidariedade para com as regiões do interior. Ao invés, têm sido aplicadas, em nome da gestão racional de recursos, políticas que desincentivam a fixação das populações e que geram uma espiral negativa conducente em última instância e por largos tempos, ao abandono de grande parte do país, pelas populações residentes.

 

O encerramento de escolas primárias com o fundamento de terem poucos alunos, desencoraja os jovens casais a permanecer nas aldeias de origem, tanto mais que os transportes públicos, que por especial favor ainda as servem, vão restringindo horários e circuitos, e o custo dos combustíveis exclui a alternativa de transporte individual. Nestas condições, os “cheques-bebé” que alguns autarcas ingenuamente distribuem na esperança de contrariar o efeito centrípeto das cidades, não surtem o efeito almejado.

 

A mesma lógica de racionalização que levou à supressão de escolas subjaz ao encerramento de postos da GNR e dos CTT, e ao definhamento dos serviços de saúde. O passo seguinte será a fusão de freguesias rurais que se traduzirá, objectivamente, em dificuldades acrescidas para uma parte da população idosa de acesso a serviços essenciais como o recebimento de pensões ou o pagamento dos consumos domésticos.

 

O Estado, reconheçamo-lo, na realidade, não tem recursos para sustentar a ocupação plena do território nacional e, a pretexto de falta de residentes, vai-se retirando, do mesmo modo que os herdeiros de grandes mansões, sem recursos para as manter, encerram quartos e salões e se confinam a uma parte do rés-do-chão. Porém, ao retirar-se, o Estado não vai sozinho; arrasta consigo uma parcela significativa da população que não se pode sujeitar a viver sem escolas, sem segurança, sem correios, sem transportes, sem cuidados de saúde e sem muitos outros serviços públicos inerentes ao modo de vida europeu. O comércio fecha as portas e os pequenos campos são abandonados.

 

Dentro de dez anos, os actuais inquilinos do interior terão desaparecido, sem que outros idosos os venham substituir nos bancos dos jardins.

 

Fenómenos, que no passado encavalitavam várias gerações sem que as pessoas, à escala das suas vidas, se apercebessem das remodelações que se operavam a nível da geografia humana, acontecem agora e sucedem-se diante de nós, tão velozmente que não podemos deixar de nos alarmar ao antever as respectivas consequências.

 

Capitais de distrito como Évora[1], Vila-Real[2] ou Covilhã[3] são baluartes de resistência à desertificação humana do interior mas devem em grande parte a sua resiliência à presença de universidades. Estarão, porém, as universidades em condições de resistir à depressão populacional das suas bacias naturais de recrutamento de estudantes?

*

Este é o contexto principal à luz do qual deveria estar a ser equacionada uma estratégia para a Universidade de Évora. Porque, na verdade, uma instituição de ensino superior pensada para cerca de 10.000 alunos presenciais é insustentável numa cidade de 60.000 habitantes se não houver clarividência para compreender o contexto, visão para descortinar os caminhos susceptíveis de conduzir ao futuro e coragem para assumir as opções que a sobrevivência impõe.

 

A rarefacção da população do interior do país é um dado para o qual os censos há muito nos alertam[4]. Embora seja um elemento primordial da configuração do contexto, haverá que conjugar esse aspecto com outros, como sejam o fenómeno de agregação que se observa entre instituições de ensino superior, o apelo à cooperação universidade-empresa, a nossa inserção em sub-redes europeias de ensino superior e de investigação científica, os programas de financiamento comunitário delineados para o futuro próximo, etc.

 

Para início de conjectenura, a Universidade de Évora terá de responder às seguintes cinco questões:

 

1. Entende que a UÉ conseguirá, sozinha, enfrentar com sucesso a concorrência da nova Universidade de Lisboa ou reconhece a necessidade de se consorciar urgentemente com outras instituições e delinear uma “resposta” estratégica?

 

2. Pretende manter a oferta de ensino dispersa por um largo leque de especialidades, indiscriminadamente apoiadas ou, ao invés, concentrar esforços na consolidação de uma oferta seleccionada com base na qualidade científica e no potencial de diferenciação que possa representar relativamente às outras universidades concorrentes?

 

3. Considera a criação do Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo um projecto megalómano e dispensável ou, inversamente atribui-lhe uma relevância estratégica na perspectiva do reforço do potencial científico e de inovação tecnológica da UÉ, bem como da ancoragem de toda a Rede Regional de Ensino Superior no tecido empresarial do país?

 

4. Afigura-se-lhe irrelevante a recomposição hierárquica do corpo docente ou, pelo contrário, considera urgente definir uma estratégia tendente ao cumprimento das metas inscritas, desde 2009, no ECDU?

 

5. Perspectiva a UÉ como uma instituição de ensino superior que acessoriamente faz investigação científica ou como uma instituição que se objectiva na produção do conhecimento e que, só nessa medida, é credível e confiável para formar as jovens gerações do país e promover a socialização do conhecimento sob todas as suas modalidades?

 

 

Contrariamente ao imaginário popular, o deserto é um ecossistema onde se cruzam diversos ramos das cadeias tróficas e onde os seres vivos desenvolvem estratégias espantosas de sobrevivência. O deserto demonstra que com “engenho e arte” é possível a muitas espécies de plantas, de animais, de fungos e de bactérias, cumprirem os respectivos ciclos de vida e perpetuarem-se em condições-limite de humidade, de temperatura e de teor em nutrientes. Por isso, o deserto é uma extraordinária fonte de inspiração e de encorajamento.

 

O “deserto de ideias”, pelo contrário, é fonte de desânimo e de estagnação.

 



[1] Entre 2001 e 2011, o concelho de Évora não perdeu população embora nos restantes concelhos do distrito se tenha registado uma quebra de 7% (INE).

[2] No mesmo período, Vila-Real de Trás-os-Montes cresceu 3,8% mas os restantes concelhos do distrito perderam 11% da população (INE).

[3] No mesmo período, o concelho da Covilhã perdeu 5% da população e nos restantes concelhos do distrito registou-se uma quebra de 5,9% (INE).

[4] No mesmo período, os distritos do litoral (Braga, Porto, Aveiro, Leiria, Lisboa, Setúbal e Faro) viram a população crescer 4,2% enquanto na globalidade de todos os outros distritos do continente, se registou uma contracção de 4,3%.

Publicado por lapenseenedoit às 18:37

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Domingo, 1 de Abril de 2012

Um plano sem estratégia

Jorge Araújo

 

 

A elaboração de um plano estratégico constitui sempre um desafio aliciante não só pela reflexão que envolve mas sobretudo porque se espera que ele seja, de algum modo, um roteiro útil para o futuro.

 

No momento presente, esse exercício tem ainda o mérito de clarificar de que bordo estão os seus proponentes: do lado daqueles que se esforçam por segurar o passado ou dos que, pelo contrário, descortinam as oportunidades que o futuro oferece e se lançam no seu encalço.

 

Na verdade, a proposta de Plano Estratégico da Universidade de Évora, ainda em versão preliminar, identifica como principais vectores que devem presidir ao delineamento da estratégia da UÉ para os próximos anos, a internacionalização, a afirmação institucional pela qualidade e pela diferença; e reconhece ainda a “promoção do mérito” como um dos valores associados à missão da Universidade. Este simples facto parece indiciar um  distanciamento “ideológico” por parte da reitoria, relativamente a sectores paroquiais da sua base académica de apoio.

 

A iniciativa merece portanto apreço, pese embora o período a que se refere seja obviamente excessivo, sobretudo se se tiver em consideração a elevada taxa de mutação dos contextos. Basta recuarmos um pouco no tempo para nos reencontrarmos com variações de contexto que contradisseram as visões e tornaram inadequadas as estratégias então em vigor na UÉ. Note-se que os soviéticos, muito dados a planeamentos, não iam além dos cinco anos. Enfim, esse é, contudo, um aspecto relativamente pouco relevante do documento.

 

A proposta de Plano encerra dois tipos de deficiências cuja correção está ao alcance dos decisores: umas consistem num significativo défice de concretização; outras são omissões. Ambas são passíveis de interpretação preocupante.

 

Na realidade, o Plano proposto decepciona o leitor na concretização das orientações estratégicas: estas limitam-se a ser meras declarações de intenção (genericamente corretas, diga-se) mas sem qualquer laivo substantivo que permita aferir a credibilidade das espectativas, essas sim,  quantificadas (algumas com um grau de precisão que vai às décimas!) para 2013 e 2020.

 

Poder-se-ia pensar que se trata de uma opção dos proponentes, assente na ideia de que a definição das medidas concretas deverá ser objecto dos Planos de Atividade, anuais. Pois...mas então não se compreende, nem é aliás sustentável, a caracterização quantitativa e rigorosa de metas a alcançar.

 

A substantivação de orientações de cariz estratégico implica, em geral, a formulação de opções. Como quando nos orientamos no terreno, não basta dizer que “é para ali”, varrendo o horizonte com um gesto vago e displicente ; é necessário optar por uma estrada, por um trilho, por um azimute, entre diversos. E, não nos iludamos, contrariamente ao que enuncia o ditado, nem todos vão dar a Roma, pelo menos em tempo útil.

 

Por princípio, qualquer opção pressupõe lucidez e coragem para atuar assimetricamente. A afirmação expressa de que a “qualidade é transversal à Universidade”, indicia uma percepção deficiente da realidade que ilude as assimetrias qualitativas existentes em vertentes tão significativas para o delineamento estratégico como sejam a produtividade científica, a relevância do interface sociocultural, o potencial estratégico na perspectiva de uma desejável afirmação pela diferença, etc.

 

Uma leitura nivelante da realidade da UÉ é cómoda mas nefasta, porque, ao colocar todos os sectores no mesmo plano, sem diferenciação de ordem ou natureza, exime-se a qualquer assimetria de ação. Ora, não é segredo para ninguém que não há planeamento estratégico sem “dor”. Como aliás foi insistentemente frisado na comunicação recente da Dr.ª Luísa Sanches da Comissão Europeia, a instituição terá de fazer opções se quiser ter lugar no futuro.

 

A ausência de opções espelha-se precisamente na vacuidade das orientações estratégicas enunciadas. Este é seguramente um ponto fraco da proposta, tão fraco que tornará o Plano, se assim permanecer,  desinteressante para o presente e para o futuro.

 

O Plano é também omisso, ou quase, em três aspectos que são fulcrais, dos quais dependerá em última instância, a sobrevivência da UÉ. Refiro-me concretamente à (i) sustentabilidade financeira, (ii) à credibilidade académica e à (iii) formação de consórcios.

 

Não reconhecer que o subfinanciamento estatal é uma condição inerente ao futuro e não uma circunstância passageira, constitui uma falha grave porque desarma a instituição numa das frentes mais cruciais para a sua sobrevivência: a autossustentação financeira. Este é um dos domínios que não pode ficar dependente da iniciativa das Unidades, mas que deve ser objecto de uma política claramente assumida pelo governo da Universidade, embora não dispense o envolvimento ativo das Escolas.

 

A segunda questão decorre da Lei (ECDU): em 2015 o corpo docente das universidades deve compreender, no mínimo, 50% de professores catedráticos e associados. Esta não é uma meta estratégica, mas a Instituição não pode deixar de se munir de uma estratégia para a alcançar. Porquê? Porque disso depende a credibilidade académica da Universidade, a sua acreditação para atribuição de graus e, porventura, disso pode depender a sua autonomia ou, no limite, a sua própria existência enquanto instituição de ensino superior. Como a própria lei estipula, a Agência de Acreditação do Ensino Superior levará em consideração, no âmbito dos processos de avaliação e acreditação das instituições, o cumprimento destas disposições legais.

 

A formação de consórcios, questão à qual me referi em texto anterior, neste mesmo blog, afigura-se pelas razões que então expus, igualmente iniludível no contexto de um Plano Estratégico.

 

Em suma, considera-se meritória a iniciativa de procurar delinear um plano estratégico bem como positiva a “visão” apresentada, mas a proposta, em si, claudica por insuficiente substantivação das orientações e pela omissão no que concerne aspectos relevantes para a sobrevivência da Instituição. Afigura-se que às debilidades identificadas subjaz uma leitura condescendente da realidade institucional conjugada com falta de arrojo em definir opções assimétricas.

 

Na ausência de propostas concretas, o documento não suscita uma verdadeira controvérsia. Continuará a ser, obviamente aprovado em todas as instâncias!!!

Publicado por lapenseenedoit às 11:55

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