Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Por que falhou a UNESUL? ...Por que não pode falhar o Parque de Ciência e Tecnologia?

Jorge Araújo

                                                                                                                                                                                                             No passado dia 28 de Dezembro formalizou-se a criação da Sociedade Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo.

 

Congratulo-me pelo facto de ver concretizar-se mais uma etapa de um projecto que gizámos, ainda que num formato menos maturo, e pelo qual nos batemos durante o meu último mandato, vencendo múltiplas dificuldades, sobretudo aquelas que decorrem das idiossincrasias dos Institutos Politécnicos.

Congratulo-me porque considero do máximo interesse para o País, para as universidades e para as empresas que se criem condições para uma efectiva cooperação no plano de um desenvolvimento tecnológico que se projecte na inovação e, em última instância na qualidade da formação avançada e na competitividade empresarial.

Em boa verdade, estas não são preocupações novas. Expressei-as em 2 de Novembro de 1994, quando da inauguração do edifício sede da Unesul (actual Colégio Pedro da Fonseca) em presença do Ministro da Indústria e da Energia do XII governo constitucional, Eng.º Luís Mira Amaral.

A Unesul constitui-se em 1988 ao abrigo do Programa COMETT, também como um interface universidade-empresa, com a ambição de contribuir para o desenvolvimento regional através da formação e da transferência tecnológica. O projecto, como se sabe, correu mal. Cometeram-se erros graves. Os objectivos não foram alcançados, longe disso; foram desperdiçados recursos financeiros vultuosos e ainda hoje se arrasta uma situação liquidatária. O empreendimento da Unesul traumatizou a Região e chamuscou a imagem da Universidade de Évora que, desde o princípio, presidiu o Conselho de Administração.

Ao ouvir os propósitos e as expectativas expressas por alguns potenciais utentes das futuras instalações do Parque não posso senão recordar e recear que se cometam os mesmos erros. Seria imperdoável se assim acontecesse e as consequências recairiam gravosamente sobre a Região e sobre a Universidade. Por isso considero ser meu dever recordar alguns factos que, em meu entender, consubstanciaram os erros cometidos na concepção e na gestão do projecto Unesul.

Os erros a que me refiro agrupam-se em três categorias: (1) cedência ao oportunismo, (2) sobrestimação das capacidades científicas e tecnológicas da Universidade de Évora e (3) despreocupação pela sustentabilidade económica do empreendimento.

Entusiasmados pelos milhões de contos que todos os dias davam entrada no País (o que levou o Primeiro Ministro a comparar Portugal com um oásis), alguns viram neste projecto a oportunidade de terem os seus próprios laboratórios apetrechados e independentes da tutela científica e financeira da Universidade; para outros, era a oportunidade de "“fazer fortuna"” dando formação ou consultoria sem pôr em causa o estatuto de dedicação exclusiva.

O primeiro erro foi a reitoria ter cedido e permitido que o projecto se formasse de modo a acomodar esses interesses ilegítimos.

Este erro foi agravado pelo facto de a UÉ não ter ponderado a capacidade científica, técnica e operacional de alguns dos proponentes dos Centros Tecnológicos; como também não era líquido que as empresas da Região estivessem adquirentes dos seus serviços.

Uma vez prevalecidos os referidos interesses na formatação da Unesul, seguiu-se o dimensionamento e a concepção das infrastruturas que os deveriam acolher, bem como dos serviços de apoio técnico e administrativo. Daí resultaram os edifícios conhecidos, construídos em terrenos cedidos pela Câmara Municipal, destinados a alojar um vasto conjunto de Centros Tecnológicos que contemplavam as tecnologias do ambiente, da energia e da informática, as biotecnologias e as agro- indústrias, mas também as artes e indústrias artesanais, o desenvolvimento dos recursos humanos bem como dos meios rural e urbano e ainda um centro de incubação empresarial, o CIEA. Criaram-se ainda pólos em Beja e em Setúbal.

No total, a Unesul obteve um financiamento do PEDIP no montante de 916 mil contos, que cobria 80% dos encargos com as edificações e com o equipamento. Os restantes 20% foram realizados com recurso ao crédito bancário.

No ano em tomei posse do cargo de Reitor da UÉ e, por inerência, o de Presidente do Conselho de Administração da Unesul, foram inauguradas as instalações em presença do Ministro da Indústria e da Energia. Já nessa época a Unesul dispunha de um Administrador Delegado e de um vasto corpo técnico e administrativo que contribuía para um encargo mensal superior a 4.000 contos!

Durante um ano, salvo erro, a Unesul beneficiou de um financiamento específico para o funcionamento, que escamoteou a situação assustadora que estava criada. Uma vez extinto o referido financiamento, a insustentabilidade financeira do projecto surgiu em toda a sua dimensão. As dívidas ao fisco avolumaram-se e impossibilitaram o recebimento de diversos subsídios a que a Unesul ainda tinha direito. Em 1997, a dívida aos Bancos ultrapassava os 92 mil contos.

Em 2000, a perspectiva de falência era mais que provável. Contudo, a UÉ conseguiu afastar esse cenário e obter da parte da Comissão de Credores e do Tribunal um plano de recuperação em cinco anos. Este plano contemplava a alienação do património (terrenos, edifícios e equipamentos). A maioria dos edifícios, dos lotes de terreno e os equipamentos acabariam por ser adquiridos pela UÉ. O resto da estória dispenso-me de narrar.

Embora a associação Unesul congregasse cerca de 100 associados, é indubitável que o mérito da iniciativa bem como a maior responsabilidade pela falência do projecto cabe à Universidade de Évora. A capacidade científica e técnica da UÉ era incipiente como débil era o tecido empresarial circundante. A previsão das receitas foi empolada, subestimados os encargos de funcionamento e, consequentemente, negligentemente equacionado o problema da sustentabilidade económica do empreendimento.

É verdade que a situação de hoje é diferente. Na UÉ identificam-se sectores com elevada competência, tanto nas Ciência e Tecnologias como nas Artes, e existem empresas com quem, desde há tempos, se estreitaram relações. Contudo, afigura-se-me pouco judicioso investir uma parte considerável do financiamento acordado, mais uma vez, na construção de edifícios. E, sobretudo, precisamente, começando pelo betão quando se sabe que grande parte do sucesso do empreendimento dependerá essencialmente das competências e dos equipamentos.

Nesta perspectiva, afigura-se-me judicioso equacionar outra solução. Esta compreenderia a reafectação das instalações da UNESUL ao seu objectivo primordial, localizando aí os laboratórios tecnológicos mais pertinentes e que maiores garantias oferecessem para a sustentabilidade económica do Parque. Novas construções seriam sempre possíveis de erigir nos lotes de terreno, livres, da própria Unesul.

Creio que seria possível fazer valer o valor do património edificado a título de contrapartida nacional do financiamento comunitário.

 

Resta, naturalmente, a questão inerente ao realojamento do Colégio Pedro da Fonseca. Afloram-se-me ao espírito diversas soluções possíveis e comparativamente mais vantajosas para sediar os Departamentos de Pedagogia, Filosofia e Psicologia. Antes de nos lançarmos na construção de novos edifícios, seria judicioso aproveitar os que já existem na Cidade que, se não estão, vão estar devolutos a breve prazo.

 

Citando Cícero, é próprio do homem errar. A nenhum, a não ser ao louco, é próprio perseverar no erro.

Publicado por lapenseenedoit às 19:49

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Domingo, 25 de Dezembro de 2011

A História repete-se...nada é verdadeiramente novo?

Jorge Araújo

 

Mark Twain dizia que não, que “a história não se repete, mas por vezes rima”.

Se ele soubesse alguma coisa sobre proteínas, concordaria provavelmente comigo: a história é como estrutura das proteínas, tem percursos espiralados, outros lineares e outros ainda em cotovelo. Quando a espiral dá uma volta parece que as coisas se repetem, mas elas estão na verdade num plano diferente embora rimem em diversos aspectos.

As finanças estarem mal, em Portugal, não é um fenómeno novo. Começou logo com D. Afonso Henriques que nunca pagou as quatro onças de ouro, anuais, prometidas ao Papa Inocêncio II a troco da protecção pontifícia, na Conferência de Zamora (1143). Sucederam-se vários descalabros financeiros ao longo dos séculos de história apesar do comércio de especiarias e do ouro do Brasil.

 

Escassos anos depois da revolução republicana, as finanças estavam exauridas. Terá sido esse o móbil do golpe de estado de 1926 que nos proporcionou um governo forte com um excelente ministro das finanças. Homem sério (raramente se ria e, em todo o caso, jamais em público), de falas lentas e competência insuspeita, ou não fosse lente de Coimbra.

 

De evolução sabia o que Bíblia nos ensina e de desenvolvimento não tinha grandes ideias; nem era preciso, pois a tarefa era acertar as contas.

 

Sob a sua batuta, pois como era tão bom foi promovido a presidente do Conselho de Ministros uns anos depois, as contas acertaram-se, o ouro acumulou-se nas caves do Banco de Portugal mas os portugueses mantiveram-se sóbrios nos seus hábitos (nunca gastaram acima das suas possibilidades) até porque, como se sabe, a riqueza e a cultura não são condições inequívocas para se alcançar a felicidade. E depois há aquela estória do buraco da agulha e do camelo, que nos ensinaram de pequeninos e que nos inculca o ideal de sermos pobrezinhos e de espírito pouco ambicioso. A concordância generalizada com o grande líder dispensou a existência de sindicatos e os partidos deixaram de ser necessários. As escolas ensinavam a cartilha, que reunia um conjunto de conhecimentos inquestionáveis e essenciais para se ser feliz e docilmente produtivo.

 

Quando o grande líder assomava à varanda (o que era raro!), multidões agitavam bandeirinhas e entoavam com fervor patriótico e ênfase belicista, o hino nacional. As tropas desfilavam exibindo o poderio militar do Estado Novo. Os meninos e as meninas das escolas vinham fardadinhos, em passo certo, com grandes estandartes. Os mais velhos, da Legião, também fardados, compunham o cenário.

 

Os portugueses viviam pobres mas contentes. É claro, havia alguns que não gostavam. Paciência, a esses aplicava-se a receita do grande líder, davam-se-lhes umas "“palmadas"”.

 

Hoje, com algum recuo e vendo como o Partido Comunista venera o regime ditatorial da Coreia do Norte, chora a morte do seu grande líder Kim Jong-il e, simultaneamente, recusa uma homenagem a um homem como Vaclav Havel que lutou pela liberdade do seu povo, sofreu a tortura e penou cinco anos na prisão, pergunto-me porque se terá o PCP portado de modo tão intolerante com o Dr. Salazar?

 

Escassos anos depois da revolução democrática, as finanças estão exauridas. Foi esse o móbil para o golpe de estado constitucional de 2011 que nos proporciona um governo forte com um excelente ministro das finanças. Homem sério (raramente se ri e, em todo o caso, jamais em público), de falas lentas e competência insuspeita. Não é lente de Coimbra...…e aqui se vê como a história não se repete exactamente.

 

Mas lá que Salazar e Gaspar rimam, é verdade!

 

Mantenhamo-nos atentos!

 

 

Publicado por lapenseenedoit às 19:47

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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Ensino Superior: consorciar ou definhar

 

Ensino superior:

Consorciar ou definhar

 

Jorge Araújo

Prof. Emérito da Universidade de Évora

 

      É comum entre nós, portugueses, imitarmos a avestruz. Mas, na realidade, esconder a cabeça na areia nunca eliminou nem resolveu nenhum problema. Esta afirmação poderia ser ilustrada por inúmeros exemplos que infelizmente abundam. Porventura um dos mais gritantes refere-se à dimensão do sistema de ensino superior público. Desde há largos anos que se tomou consciência de que há instituições de ensino superior em excesso, tanto na perspectiva da procura por parte dos jovens que terminam o secundário, como dos recursos financeiros do Estado disponíveis para as sustentar. Recorde-se que actualmente, o Sistema de Ensino Superior público compreende 17 universidade e 15 institutos politécnicos distribuídos pelos 18 distritos administrativos e 2 regiões autónomas.

      Contudo, não nos apercebemos, no passado, de qualquer atitude pró-activa dos governantes no sentido de corrigir de algum modo a situação, nem sequer se lhes ouviu um comentário que indiciasse estarem cientes do problema. Foi preciso o país entrar em profunda crise para que começassem a surgir vozes defensoras da regulação do sistema; sem reflexão nem conhecimento apontam para a extinção de universidades.

         Recuemos um pouco no tempo. O sinal de alerta mais sonante ecoou na década de 90 quando o Estado entrou em incumprimento da fórmula de financiamento por ele próprio criada dois ou três anos antes. A Universidade de Évora teve o seu último orçamento de acordo com a fórmula, em 1996. A partir de então, os orçamentos divergiram sistematicamente do resultado calculado pela fórmula, até que o Estado compreendeu que tinha de alterar o algoritmo e conferir-lhe um significado de simples instrumento distributivo de um envelope previamente dimensionado. Por fim, a fórmula deixou de ser aplicada tout court!

       O processo de tomada de consciência é lento e beneficia geralmente de múltiplos contributos. Um destes teve a ver, indubitavelmente, com a progressiva qualificação científica das universidades públicas, que se inscreveu na mudança paradigmática ocorrida cerca de vinte anos após a instauração do regime democrático.

       A universidade saída do 25 de Abril visava a democratização do acesso à formação superior (licenciatura) e, através desta, também a alavancagem dos ensinos primário e secundário. A partir da década de oitenta começaram a surgir os incentivos à oferta de pós-graduações[1]. Mas a investigação científica permaneceu na penumbra, pese embora as referências que a ela são feitas no primeiro Estatuto da Carreira Docente Universitária[2]. Recorde-se que a investigação científica só recebeu os primeiros apoios substanciais[3] a partir de 1991, na vigência dos Programas CIÊNCIA e STRIDE. Data de então a criação dos Centros de Investigação apadrinhados pela JNICT bem como os primeiros financiamentos consistentes em infra-estruturas e equipamentos científicos, em projectos de I&D e em bolsas de formação avançada.

      A consciência de que à universidade compete não só ministrar a formação inicial mas também realizar investigação científica e oferecer programas de formação avançada é, entre nós, relativamente recente...…cerca de 20 anos apenas! Acresce que a revisão da Lei de Bases do Sistema Educativo[4] e, posteriormente, a legislação dos Graus e Diplomas do Ensino Superior[5], condicionando a capacidade de atribuição do grau de doutor numa determinada área à existência de competência científica nesse domínio vieram dar o nó final na mudança de paradigma.

      Finalmente, o Processo de Bolonha e a Declaração de Lisboa de 2000, enfatizando a dependência da competitividade, da inovação e esta, da produção de conhecimento de que as universidades são grandes responsáveis, vieram exacerbar a pressão para que as universidades se concebam e se formatem tendencialmente como Teaching and Research Universities.

      Em suma, não foi sob este paradigma que as universidades proliferaram no país. Não foi este conceito de universidade que esteve presente na mente dos políticos que as criaram e dos autarcas que tanta pressão fizeram para que em cada capital de distrito nascesse uma.

      No limite, seria concebível a existência de um pequeno instituto universitário que ministrasse apenas alguns cursos de licenciatura com base num corpo docente qualificado em universidades (e em fim de carreira) e em empresas.

      Ao invés, uma universidade tem exigências de outra ordem e de outra monta, nomeadamente: (i) a formação do corpo docente em contexto internacionalizado de investigação científica, desenvolvimento tecnológico ou criação artística; (ii) diversidade de competências científicas e artísticas do corpo docente, inscritas num amplo espectro de especialidades; (iii) condições de acolhimento (estudo e vivência) dos estudantes, condignas e compatíveis com o esforço que se lhes exige e com a apropriação cultural e a prática desportiva inerentes à formação universitária; e ainda (iv) a conceptualização da instituição em moldes financeiramente sustentáveis.

      Este último aspecto é particularmente crítico em período de “vacas magras”, quando as subvenções estatais ficam muito aquém de cobrir os encargos de um funcionamento tão exigente. Neste contexto, a procura de economias de escala impõe-se como via incontornável para a sustentabilidade financeira. Esta é uma das razões que determina a tendência para a federalização ou para fusão de universidades que se verificou, quer em Londres[6], quer em Copenhaga[7] e se observa agora em Lisboa, protagonizada pela "“Técnica”" e pela "“Clássica”".

      A fusão das universidades comporta ainda outras vantagens que se traduzem em economia e qualidade: racionalização da oferta formativa, incremento do potencial científico, gestão global do corpo docente e do pessoal técnico e administrativo, gestão global da aquisição de bens, etc. Todas estas economias permitem não só encarar com optimismo a sustentabilidade financeira da instituição como também canalizar para a política de qualidade uma parte dos recursos. Dito de outro modo, permite investir na competitividade e na internacionalização.

      Esta perspectiva assistiu-nos há vários anos quando promovemos a criação da Rede Regional de Ensino Superior (1995), a integração da Escola Superior de Enfermagem (iniciada em 1998 e concluída em 2004) e, mais recentemente (2006), ao propormos a criação da Academia do Sul através de um consórcio que reunia as duas universidades, de Évora e do Algarve, os Institutos Politécnicos do Alentejo e ainda o Campo Arqueológico de Mértola.

      O distanciamento físico entre estas instituições não se me afigura consentâneo com o processo de fusão. Pelo contrário, a federalização numa entidade comum, potenciaria a racionalização da oferta formativa, a gestão conjunta da capacidade docente, a integração das equipas de investigação, o recurso às tecnologias de comunicação para a leccionação simultânea de aulas em várias instituições, a globalização das aquisições e de contratos bem como outras medidas geradoras de economia de escala.

      Será esta federalização uma opção facuyltativa ou susceptível de ser adiada para as "calendas gregas"?

      Não creio. Direi mais: considero-a urgente. Admito, contudo que possam delinear-se diversos formatos.

      O Estado não tem nem jamais terá recursos para sustentar plenamente o sistema de ensino superior público com o actual formato, mas também não assumirá o ónus político de encerrar qualquer das instituições públicas. A pauperização das universidades que não procurarem encontrar soluções de sobrevivência, criativas e inteligentes, conduzi-las-à à irrelevância; e a um termo mais ou menos longo, ao encerramento.

      Pelo contrário, a federalização de instituições que, embora de pequena dimensão, se complementem para (i) racionalizar a oferta formativa com incremento da qualidade e redução de custos, (ii) implementarem políticas de internacionalização que visem não só o horizonte transfronteiriço[8] mas também a resposta às novas solicitações dos projecto U-Map[9] e U-Multirank[10], (iii) acederem aos vultuosos fundos comunitários que se perspectivam para o período 2013-2020 e serem reconhecidas na qualidade de Teaching and Research Universities e (iv) actuarem sinergicamente na valorização do território e na preservação dos seus patrimónios, sobreviverão e consolidar-se-ão nos contextos regional, nacional e europeu.

      É expectável que o exemplo dado pela "“Técnica"” e pela "“Clássica"” venha a fomentar um movimento de aglutinação de IES com expressão noutros pontos do país. O que acentuará ainda mais a fragilidade daquelas que optem pelo “"orgulhosamente sós”". O primeiro passo para a irrelevância poderá decorrer da acreditação das instituições e das respectivas ofertas formativas. À semelhança de muitas outras determinações legais, poder-se-ia supor que a exigência de que o corpo docente compreenda 50 e 70% de professores catedráticos e associados a partir de 2014[11], tivesse resvalado para o esquecimento. Não será assim a fazer fé nas recentes declarações do Prof. Alberto Amaral, Presidente do Conselho de Administração da Agência de Avaliação e Acreditação A3ES, para à revista do SNESUP[12].

      A luz ao fundo do túnel continua a brilhar. Mas para a ver e a alcançar …é preciso ter visão e actuar enquanto é tempo.

 

[1] D.L. n.º 263/80 de 7 de Agosto (legislação sobre mestrados); DL. N.º 264/80 (introduz nas Universidades, os Institutos Coordenadores de Estudos Pós-Graduados), Despacho n.º 291/81

[2] Lei n.º 19/80 de 16 de Julho.

[3] Relatório de Actividades da JNICT, 1991, 55 pp.; Dotações Orçamentais para Ciência e Tecnologia (1986-1999), OCT, 1998.

[4] Lei 49/2005 (alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo, n.º46/86)

[5] DL n.º 74/2006

[6] A Universidade Londres é uma federação de Colleges e de Institutos de Investigação, autónomos

[7] Em 2007, a Universidade de Copenhaga fundiu-se com a Real Universidade de Veterinária e Agricultura e com a Universidade Dinamarquesa de Ciências Farmacêuticas, que são hoje as Faculdades de Ciências da Vida e de Ciências Farmacêuticas.

[8] O Espaço do Conhecimento do Sudoeste Ibérico tem já um princípio de conceptualização

[9] Classificação das universidades europeias em função do seu perfil, num sistema multidimensional não hierarquizado ( http://www.u-map.eu)

[10] http://ec.europa.eu/education/higher-education/doc/multirank_en.pdf

[11] DL.205/2009: Estatuto da Carreira Docente, Art. 84.º, n.º4

[12] Ensino Superior (Revista do SNESUP), n.º 40 (Abril, Maio, Junho) 2011.

Publicado por lapenseenedoit às 15:10

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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Psicologia, Politica e Qualidade de Vida

"Psicologia, Política e Qualidade de Vida" foi o tema do painel que moderei no âmbito do recente Congresso de Psicologia que teve lugar na Universidade de Évora. No contexto apocalíptico em que o país mergulha, a temática suscitou uma grande expectativa. Infelizmente, a desistência de um dos oradores, o mediático Dr. Henrique Medina Carreira, suprimiu a expectável ponte entre a psicologia e a qualidade de vida, que ficaram exclusivamente a cargo do Prof. Jorge Correia Jesuíno, filósofo e sociólogo, professor emérito do ISCTE.

 

O conceito de qualidade de vida terá emergido nos Estados Unidos, pelos anos 30 (anos da "“grande depressão"” e do “New Deal”) mas, na verdade, enraíza na própria constituição americana de Thomas Jefferson, que inscreve a felicidade como um direito inalienável de todo o cidadão americano. Porém, ter-se-á conceptualizado sobretudo nos anos 60 no contexto do boom económico e do Programa Great Society lançado pelos democratas, que visava, como objectivos primordiais, a eliminação da pobreza e da injustiça social. Nesse contexto, aliás, foram criados mecanismos de segurança social que ainda hoje perduram nos Estados Unidos, como o Medicare para a população com mais de 65 anos e o Medicaid para as pessoas de fracos recursos.

 

Apontam-se como uma das primeiras referências à “qualidade de vida”, as palavras do Presidente Lyndon Johnson proferidas num discurso à nação, em 1964: “o progresso social não pode ser medido através do balanço dos bancos mas através da qualidade de vida proporcionada às pessoas”. O mesmo conceito seria expresso pelo Presidente Johnson, em 1965, num discurso aos estudantes: “A tarefa da Great Society é garantir ao nosso povo, o ambiente, as capacidades e as estruturas sociais que lhes darão uma oportunidade significativa para atingir a felicidade individual. Assim a Great Society tem a ver não com o quanto mas com o quão bom — não com a quantidade de bens, mas com a qualidade de suas vidas

 

A partir dos anos 60, o conceito de “qualidade de vida” foi apropriado por diversos territórios científicos. O conceito é necessariamente difuso e os seus contornos deslocam-se consoante as perspectivas de quem o aborda, que seja o da política, da saúde física, da saúde psíquica, do bem-estar social, ou mesmo das neurociências. É pois natural que o conceito de “qualidade de vida” seja objecto de diversas definições. Afigura-se-me plausível que o assento tónico se tenha posicionado sobre os aspectos condicionantes da saúde física pelo que o prolongamento da esperança de vida e a melhoria constante das técnicas inerentes aos cuidados de saúde têm sido predominantemente percepcionados como factores determinantes da qualidade de vida. As diversas perspectivas foram objecto, em 1998, de uma análise crítica pelo psiquiatra Philippe Corten (3), professor da Universidade Livre de Bruxelas.

 

Em 1994, a OMS procurou fazer uma síntese e definiu assim: A qualidade de vida é a percepção que um indivíduo tem do seu lugar na existência, no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais vive, em relação com os seus objectivos, as suas expectativas e as suas preocupações. Trata-se de um largo campo conceptual, englobando de modo complexo, a saúde física da pessoa, o seu estado psicológico, o seu nível de independência, as suas relações sociais, as suas crenças e a sua relação com as especificidades do ambiente.

 

Nesta definição são introduzidos dois aspectos importantes, o da cultura e dos valores.

 

Numa outra definição, proposta pelo oncologista escocês Kennett Calman (1) através da sua experiência com doentes cancerosos, enfatiza-se a dimensão do hiato entre o que, em determinado momento, nos faz falta na vida e o que desejaríamos possuir ou alcançar: a qualidade de vida mede, num determinado momento, a diferença entre as esperanças e as expectativas de um indivíduo e a sua vivência actual.

 

Esta singela reflexão em que me lancei vem a propósito de dois factos recentes. O primeiro foi a lacuna sentida, no painel que moderei no Congresso de Psicologia, em virtude da ausência de um dos oradores, de quem se esperava uma abordagem ao tema pela vertente política. E não seria de modo nenhum uma intromissão abusiva já que o conceito de “qualidade de vida” nasceu exactamente num berço político. O segundo foi a leitura recente de um relatório da Associação Canadiana dos Organismos Artísticos (CAPACOA) (2), de Agosto de 2011, dirigido ao Comité Permanente das Finanças, que enfatiza o valor da indústria canadiana do sector criativo em período de dificuldades económicas, e cujo conteúdo corrobora uma afirmação do ministro do património canadiano, James Moore: “Investir nas artes e na cultura e sustentar a economia da criação, é sustentar a economia no seu todo”.

 

O relatório sustenta a importância da indústria artística, nomeadamente para a criação de emprego, para a atractividade dos centros urbanos e a respectiva revitalização, para o surgimento de outras indústrias paralelas e para a regeneração económica. Isto é, para o incremento de factores que são determinantes da “qualidade de vida”. Por fim, o relatório exorta o governo canadiano a investir nos sectores criativos, inclusivamente no ensino das artes, o qual é visto como instrumento fundamental para o desenvolvimento da capacidade criativa dos jovens.

 

Em Portugal, a perspectiva do poder político projectada nas medidas sociais e financeiras que vêm sendo tomadas desde há alguns anos, não aponta, seguramente nessa direcção. Assim, o desinvestimento na cultura só pode actuar sinergicamente com os outros factores económicos no aprofundamento do hiato entre o anseio e a realidade. Dito de outro modo, na perda da “qualidade de vida”.

 

Neste ponto, a questão transpõe-se para o plano psicológico. Sem ousar formular sustentadamente qualquer correlação entre a perda de “qualidade de vida” e a emergência de estados depressivos, afigura-se-me todavia, pela observação e pela experiência de vida, que as opções políticas conhecidas não só marginalizam uma parte significativa do potencial criativo e laboral da população como induzem generalizadamente o desinteresse e a apatia em lugar de actuarem como o incentivo mobilizador de que o país carece para vencer as adversidades.

 

Isto é, não haverá presumivelmente desenvolvimento económico sem que a política volte a promover a “qualidade de vida” dos portugueses.

 

(1) CALMAN, KC., 1984 : Quality of life in cancer patients.: a hypothesis. J. Med. Ethics, 124-127

(2) CAPACOA, 2011: La valeur et la fiabilité de l’industrie canadienne du secteur créatif en période de difficultés économiques. Mémoire soumis au Comité permanent des fi-nances, dans le cadre des consultations prébudgétaires. www.capacoa.ca

(3) CORTEN, Ph.,1998 : Le concept de qualité de vie vue à travers la littérature anglo-saxone. L’Information Psychiatrique, 9 :922-932

Publicado por lapenseenedoit às 19:30

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