Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Psicologia, Politica e Qualidade de Vida

"Psicologia, Política e Qualidade de Vida" foi o tema do painel que moderei no âmbito do recente Congresso de Psicologia que teve lugar na Universidade de Évora. No contexto apocalíptico em que o país mergulha, a temática suscitou uma grande expectativa. Infelizmente, a desistência de um dos oradores, o mediático Dr. Henrique Medina Carreira, suprimiu a expectável ponte entre a psicologia e a qualidade de vida, que ficaram exclusivamente a cargo do Prof. Jorge Correia Jesuíno, filósofo e sociólogo, professor emérito do ISCTE.

 

O conceito de qualidade de vida terá emergido nos Estados Unidos, pelos anos 30 (anos da "“grande depressão"” e do “New Deal”) mas, na verdade, enraíza na própria constituição americana de Thomas Jefferson, que inscreve a felicidade como um direito inalienável de todo o cidadão americano. Porém, ter-se-á conceptualizado sobretudo nos anos 60 no contexto do boom económico e do Programa Great Society lançado pelos democratas, que visava, como objectivos primordiais, a eliminação da pobreza e da injustiça social. Nesse contexto, aliás, foram criados mecanismos de segurança social que ainda hoje perduram nos Estados Unidos, como o Medicare para a população com mais de 65 anos e o Medicaid para as pessoas de fracos recursos.

 

Apontam-se como uma das primeiras referências à “qualidade de vida”, as palavras do Presidente Lyndon Johnson proferidas num discurso à nação, em 1964: “o progresso social não pode ser medido através do balanço dos bancos mas através da qualidade de vida proporcionada às pessoas”. O mesmo conceito seria expresso pelo Presidente Johnson, em 1965, num discurso aos estudantes: “A tarefa da Great Society é garantir ao nosso povo, o ambiente, as capacidades e as estruturas sociais que lhes darão uma oportunidade significativa para atingir a felicidade individual. Assim a Great Society tem a ver não com o quanto mas com o quão bom — não com a quantidade de bens, mas com a qualidade de suas vidas

 

A partir dos anos 60, o conceito de “qualidade de vida” foi apropriado por diversos territórios científicos. O conceito é necessariamente difuso e os seus contornos deslocam-se consoante as perspectivas de quem o aborda, que seja o da política, da saúde física, da saúde psíquica, do bem-estar social, ou mesmo das neurociências. É pois natural que o conceito de “qualidade de vida” seja objecto de diversas definições. Afigura-se-me plausível que o assento tónico se tenha posicionado sobre os aspectos condicionantes da saúde física pelo que o prolongamento da esperança de vida e a melhoria constante das técnicas inerentes aos cuidados de saúde têm sido predominantemente percepcionados como factores determinantes da qualidade de vida. As diversas perspectivas foram objecto, em 1998, de uma análise crítica pelo psiquiatra Philippe Corten (3), professor da Universidade Livre de Bruxelas.

 

Em 1994, a OMS procurou fazer uma síntese e definiu assim: A qualidade de vida é a percepção que um indivíduo tem do seu lugar na existência, no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais vive, em relação com os seus objectivos, as suas expectativas e as suas preocupações. Trata-se de um largo campo conceptual, englobando de modo complexo, a saúde física da pessoa, o seu estado psicológico, o seu nível de independência, as suas relações sociais, as suas crenças e a sua relação com as especificidades do ambiente.

 

Nesta definição são introduzidos dois aspectos importantes, o da cultura e dos valores.

 

Numa outra definição, proposta pelo oncologista escocês Kennett Calman (1) através da sua experiência com doentes cancerosos, enfatiza-se a dimensão do hiato entre o que, em determinado momento, nos faz falta na vida e o que desejaríamos possuir ou alcançar: a qualidade de vida mede, num determinado momento, a diferença entre as esperanças e as expectativas de um indivíduo e a sua vivência actual.

 

Esta singela reflexão em que me lancei vem a propósito de dois factos recentes. O primeiro foi a lacuna sentida, no painel que moderei no Congresso de Psicologia, em virtude da ausência de um dos oradores, de quem se esperava uma abordagem ao tema pela vertente política. E não seria de modo nenhum uma intromissão abusiva já que o conceito de “qualidade de vida” nasceu exactamente num berço político. O segundo foi a leitura recente de um relatório da Associação Canadiana dos Organismos Artísticos (CAPACOA) (2), de Agosto de 2011, dirigido ao Comité Permanente das Finanças, que enfatiza o valor da indústria canadiana do sector criativo em período de dificuldades económicas, e cujo conteúdo corrobora uma afirmação do ministro do património canadiano, James Moore: “Investir nas artes e na cultura e sustentar a economia da criação, é sustentar a economia no seu todo”.

 

O relatório sustenta a importância da indústria artística, nomeadamente para a criação de emprego, para a atractividade dos centros urbanos e a respectiva revitalização, para o surgimento de outras indústrias paralelas e para a regeneração económica. Isto é, para o incremento de factores que são determinantes da “qualidade de vida”. Por fim, o relatório exorta o governo canadiano a investir nos sectores criativos, inclusivamente no ensino das artes, o qual é visto como instrumento fundamental para o desenvolvimento da capacidade criativa dos jovens.

 

Em Portugal, a perspectiva do poder político projectada nas medidas sociais e financeiras que vêm sendo tomadas desde há alguns anos, não aponta, seguramente nessa direcção. Assim, o desinvestimento na cultura só pode actuar sinergicamente com os outros factores económicos no aprofundamento do hiato entre o anseio e a realidade. Dito de outro modo, na perda da “qualidade de vida”.

 

Neste ponto, a questão transpõe-se para o plano psicológico. Sem ousar formular sustentadamente qualquer correlação entre a perda de “qualidade de vida” e a emergência de estados depressivos, afigura-se-me todavia, pela observação e pela experiência de vida, que as opções políticas conhecidas não só marginalizam uma parte significativa do potencial criativo e laboral da população como induzem generalizadamente o desinteresse e a apatia em lugar de actuarem como o incentivo mobilizador de que o país carece para vencer as adversidades.

 

Isto é, não haverá presumivelmente desenvolvimento económico sem que a política volte a promover a “qualidade de vida” dos portugueses.

 

(1) CALMAN, KC., 1984 : Quality of life in cancer patients.: a hypothesis. J. Med. Ethics, 124-127

(2) CAPACOA, 2011: La valeur et la fiabilité de l’industrie canadienne du secteur créatif en période de difficultés économiques. Mémoire soumis au Comité permanent des fi-nances, dans le cadre des consultations prébudgétaires. www.capacoa.ca

(3) CORTEN, Ph.,1998 : Le concept de qualité de vie vue à travers la littérature anglo-saxone. L’Information Psychiatrique, 9 :922-932

Publicado por lapenseenedoit às 19:30

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